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ver em 3D (parte I) – disparidade binocular

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 22 Aug 2009

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Dou por mim muitas vezes a pensar no esforço imparável que a ciência e a técnica empregam no sentido de simular o olho humano – a alta definição, os televisores enormes, o DYNAMIC CONTRAST ou o TRUE MOTION 100Hz, entre outros. O seu sucesso é questionável, nenhum rivaliza com a experiência visual ‘ao natural’. Uma das razões está no facto que nós temos percepção da profundidade dum objecto enquanto que o nosso monitor ainda não o faz de forma satisfatória promete passar a fazê-lo. A pergunta e tema deste post é, portanto, como o conseguimos?


Uma das coisas que, se fosse religioso, agradeceria a Deus por, era ter alguns órgãos aos pares. Não só pela simetria (uma característica que o nosso sistema perceptual associa a perfeição, por exemplo, em faces) mas porque dão jeito. Os dois olhos, mais que dois pulmões ou dois rins, não são mais um, são sinérgicos. O input sensorial dos dois olhos é fundido a nível cerebral de forma transparente, para criar uma experiência espacial envolvente, a estereopsia.

O conceito é simples. Os dois olhos estão em locais diferentes, uma disparidade horizontal de cerca de 6 cm (distância interpupilar). Fixando um ponto central, equidistante dos dois olhos, os objectos na envolvência projectam uma imagem (ligeiramente) diferente em cada retina (o mesmo objecto estimula uma porção diferente da retina portanto, a parte sensorial do olho), a chamada disparidade binocular. Um esquema:

Com base na disparidade binocular, o cérebro faz a sua ‘magia’: dispõe a sensação visual (que na retina é totalmente bidimensional) no espaço usando a disparidade binocular como referência para a posição dos objectos e sua orientação, criando a experiência envolvente que é a visão de profundidade.

Um analogia possível seria a um sistema GPS, onde a disparidade temporal de um ponto em relação aos satélites (a distância é calculada com base na diferença entre o timestamp do satélite e o momento em que foi recebido no nosso receptor) permite ‘quadrangular’ a sua posição. Se os olhos forem os satélites, bem, acho que estão a ver onde quero chegar.

Percebendo isto, é muito fácil entender ao que recorre a indústria para emular esta experiência (existem outras abordagens claro). Numa projecção feita para 3D, sem os belos dos óculos acima representados o que vemos são duas imagens iguais sobrepostas e ligeiramente desalinhadas, um ‘ver desfocado’ em linguagem popular. Os óculos, por sua vez, são dotados por filtros de luz polarizada, antagónicos em cada uma das lentes. Uma vez postos, cada olho só vê uma das imagens; como as imagens não estão no mesmo sítio, cria-se uma disparidade binocular, simulando-se a estereopsia. Simples, como se pode ver neste anáglifo tridimensional.

Por outro lado, é importante realçar que a percepção espacial não acaba na visão binocular. Na verdade, a disparidade binocular enquanto pista perceptual só é significativa para distâncias inferiores a 30 e poucos metros.

Para distâncias superiores, as imagens projectadas colocam-se em posições praticamente iguais nas duas retinas. Assim sendo, recorremos às chamadas pistas monoculares, a abordar num próximo post.

ribloflavina – impressionem os vossos amigos…

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 20 Aug 2009

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Querem poder dizer que mijam urina da mesma cor que o sangue do predator?

Uma palavra para vocês então: Riboflavina.

A riboflavina, coloquialmente conhecida como vitamina B2, é… bem, uma vitamina; como todas as vitaminas B, tem um papel importante no metabolismo das gorduras, hidratos de carbono e proteínas. Pode ser encontrada no leite, queijo, ervilhas, bróculos, arroz, trigo, cevada, e por aí adiante.

A dose diária recomendada anda entre os 1,3 e 1,7 mg. Contudo, para conseguirem o tal efeito da urina amarela-esverdeada fluorescente (well, pseudo-fluorescente), é necessário uma ingestão de 2 mg para cima, apesar de com 1,5 mg já se notar qualquer coisinha.

Bom, não vos maço mais, vamos directos ao que interessa, a receita.
Centrum standard tem à volta de 1,5 mg, já serve.
Se não se derem por satisfeitos, Stresstabs com 15 mg há-de funcionar.

Fica a dica.

(Atenção: Este post é revestido meramente de teor informativo. Não vos quero ver a correr a uma farmácia depois de lerem isto. Se planeiam comprar suplementos vitamínicos, aconselhem-se com o vosso médico de família primeiro.)

T9, pré-adolescentes e uma primeira achega à neuroplasticidade

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 19 Aug 2009

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Predictive text messaging changes the way children’s brains work and makes them more likely to make mistakes generally, a study has found.

Scientists say the system, which involves pressing one key per letter before the phone works out what word the user wants to type, trains young people to be fast but inaccurate.

They claim this makes them prone to impulsive and thoughtless behaviour in everyday life.

Gosto de pensar que sou ‘cool’ por escrever mensagens escritas à maneira antiga, sem a chamada ‘escrita inteligente’. Sempre achei que o sistema tira alguma liberdade; se por um lado diminuiu a densidade de abreviaturas, de “k”s, etc, não o fez à custa dum esforço activo dos utilizadores; simplesmente o sistema assim o obriga para dele fazer uso.

Feito o “à parte”, vamos à notícia e a uma pequena reflexão crítica sobre esta. Não é a primeira vez que ouvimos dizer que a tecnologia, nas suas diferentes variantes embrutece o utilizador. São as calculadoras, os Magalhães, etc.

Se há fundamento? Há. Pessoalmente, não vejo maneira de suavizar a realidade. O nosso desenvolvimento pessoal faz-se à custa de desafios; tudo o que torna a nossa vida mais fácil, não nos faz mais espertos. Sou só eu que me lembro que o Son Goku (e os restantes elementos daquela grande raça que são os Saiyans) ficava sempre mais forte depois duma valente carga de porrada? Se até os desenhos animados percebem isto…

O nosso cérebro desenvolve-se em resposta ao ambiente. E não é também segredo que quanto mais jovem se é mais fácil é aprender. A base neurológica da aprendizagem é diversa, ainda mal compreendida (por mim e penso que pela ciência em geral) mas resume-se à proliferação neuronal (principalmente nas crianças) e à alterações sinápticas – a sinapse é a conexão entre dois neurónios; se pensarmos analogamente a um circuito eléctrico, uma sinapse é facilitada quando se diminui a resistência à passagem de corrente, inibida na situação inversa. O equilíbrio entre facilitação e inibição sináptica pode estar na base de fenómenos de neuroplasticidade, a capacidade de o cérebro se adaptar, anatomica- e funcionalmente, a um ambiente solicitador.

A neuroplasticidade é uma coisa fantástica, que irei aprofundar noutros posts. Este fenómeno é particularmente agressivo em casos de amputações, cegueira, etc; tudo situações onde ocorre um shift brutal nas nossas necessidades de interacção com o ambiente; o estudo da reorganização cerebral, anatómica e funcional, alicia a comunidade científica; diz-se por aí que os cegos desenvolvem todos os outros sentidos – não será certamente por acaso. Também os acidentados com défices da motricidade – a fisioterapia é essencialmente o tal estímulo ambiental para a neuroplasticidade de modo a recuperar essa capacidade, criar e facilitar novas ligações, já que as anteriores ficaram irreversivelmente lesadas.

No caso específico do T9 o que temos é, num primeiro nível, um desprezar da ortografia num sentido estrito. Aquela ‘merda’ até mete os acentos, as cedilhas. Num segundo nível, é reforçada a pulsão do imediato: quero, posso e mando. Esta é a tese da notícia. Acontece que um corrector ortográfico com tendência para o facilitismo usado e abusado por jovens pré-púberes, altamente voláteis a fenómenos de neuroplasticidade, incorre naturalmente numa menor estimulação para uma ortografia correcta. Escrever bem (ou fazer contas de cabeça, cf. calculadoras) é um acto mecânico – o treino facilita a sinapse (se quisermos por isto num ponto de vista simplista).

Por outro lado, para quê mecanizar aptidões que já não são tão necessárias? Isto é discutível, é certo. Nem eu concordo com o que acabei de escrever. Acho que se deve escrever bem, porra. Mas o essencial é que as crianças continuem a ser estimuladas para processos cognitivos básicos de memorização, mecanização, abstracção, raciocínio, etc. Se isso deixou de ocorrer pelo cálculo (calculadoras) ou pela escrita (correctores ortográficos), ao menos que o seja por outras vias (os jogos de computador por exemplo). Facilitamos numas coisas, temos que puxar por outras.

Ainda assim, escrever bem é importante. Sinto um arrepio na espinha quando vejo certas calinadas. Até as minhas. Isto de ter risquinhos vermelhos por baixo das palavras falaciosas, de ler menos do que devia e falar demais do MSN faz as suas mossas, até em mim que já não sou nenhuma criança.

O conselho que este vosso autor vos deixa é simples. Estamos todos a apodrecer um bocado, a tentação está à nossa volta. Mas para isso Deus inventou o Sudoku*. Ámen.

Daily Mail via Gizmodo

* – que odeio. Mas perceberam a ideia.

pedofilia

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 11 Aug 2009

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Um amigo perguntou-me, provavelmente já esperando que eu me perdesse em divagações, se existia alguma causa ou fundamento biológico para a pedofilia. Tal motivou alguma pesquisa da minha parte, pelo que resolvi partilhar algumas das minhas descobertas.

A mente e o corpo são indissociáveis; é evidente que qualquer psicopatologia (como é o caso da pedofilia) possui uma ligação biológica; igualmente, para a maioria destas, existe uma etiologia (causa) multifactorial, que depende do binómio genética-ambiente, a genética dá as cartas, o ambiente baralha-as.

pedo

A pedofilia é uma doença do foro psiquiátrico que se caracteriza por pulsões e comportamentos sexuais orientados para crianças pré-púberes.

Causa? Incerta. Os estudos abundam mas ainda não foi comprovada inequivocamente qualquer relação de causa-efeito. Existem sim associações, isto é, maior probabilidade de manifestação da característica A num indivíduo pedófilo do que na população em geral, sem que daí se possa extrair um nexo de casualidade evidente.

Nas minhas pesquisas, tive a oportunidade de ler um artigo que explora associações entre a pedofilia e alterações cerebrais.

Artigo

Neste artigo foi feito um estudo de comparação de grupos. De maneira a eliminar qualquer bias extra-pedofilia, foram comparados pedófilos do sexo masculino, metade patologicamente orientado para crianças do sexo masculino, metade para o sexo feminino. O grupo de controlo era constituído metade por heterossexuais e metade por homossexuais, de maneira a assegurar um paralelismo de afinidade de género. Outros parâmetros foram igualmente matched (idade, educação, etc).

Para avaliar a existência de diferenças, recorreram à ressonância magnética, uma técnica imagiológica. Para os geeks de vós, usaram um técnica chamada VBM – voxel based morphometry. Um voxel é um pixel volumétrico; em linhas gerais, agrupam os sujeitos em grupos (pedófilos e controlos), fazem um averaging, e comparam voxel a voxel em busca de diferenças.

O que encontraram?

Resultados

Output gráfico da VBM

Sem grandes detalhes anatómicos, a verdade é que foram encontradas diferenças significativas. Com detalhes, para quem os quiser ler, verificou-se diminuição do volume de matéria cinzenta no putamen, nc. accumbens, cortex orbifrontal e cerebelo no grupo de sujeitos pedófilos.

A interpretação da figura é simples, as zonas vermelhas representam diminuição de massa cinzenta, na primeira slice temos zonas vermelhas no cerebelo, no segundo corte a nível do cortex orbifrontal, etc…

Por fim, pergunto aos que lerem isto, da mesma forma como me perguntei a mim mesmo, que valor tirar desta informação? Vamos diagnosticar pedófilos? Fazer exames genéticos como quem faz uma amniocentese ou uma ecografia pré-natal? Vamos entrar numa onda à Minority Report onde a sentença antecede o crime?

Este último parágrafo foi um pouco sensacionalista, confesso; a informação contida neste artigo nunca permitiria diagnosticar pedófilos; as alterações encontradas são por exemplo comuns a portadores de doença obsessiva-compulsiva, com a qual a pedofilia tem algumas semelhanças; como disse em cima, é uma associação, não uma relação de causa efeito!

A reter deste post: se nos esforçamos o suficiente, vamos sempre encontrar alguma coisa, seja qual for a doença, um gene, uma hormona, uma proteína, um factor ambiental; vamos sempre encontrar associações, a mente marca o corpo e vice-versa. Não tenho dúvidas que, e mudando de doença, se comparassem um grupo de padres (ou indivíduos normais, não sejamos preconceituosos) e um grupo de psicopatas, as diferenças abundariam. O mesmo entre indivíduos “espertos” e “burros” e até “feios” e “bonitos”.

Não há muito tempo atrás Adolf Hitler seleccionava indivíduos no seu ideal eugénico. No futuro, o conhecimento poderá levar à tentação, e a tentação levará a…prefiro não saber.

locked-in syndrome

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 09 Aug 2009

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Ou em português de camões, síndrome do enclausuramento.

O que é?

Em primeiro lugar, é o tema deste post.
Em segundo lugar, como consequência do primeiro, obviamente, é uma condição rara em que uma pessoa está consciente e com as faculdades mentais perfeitamente preservadas. Contudo, está totalmente paralisada (por acaso não, mas não quero quebrar o efeito dramático desta pequena introdução – já explico). O nome deriva dessa impossibilidade de se mexer ou comunicar com o exterior, como se o corpo fosse uma prisão para a mente.

Bem, pormenores.
Quem estiver em hipoglicémia que se fique por aqui.

Continuando…

Causa?
(hint: não é o amor)
Já uma lesão no tronco cerebral ou um derrame nessa área poderá levar a tal.

Como se pode ver na figura, é no tronco cerebral que se faz a “ligação” entre a medula espinhal e o cérebro. Tendo em conta que todos os sinais de movimento voluntário partem do cérebro e têm de chegar à medula espinhal, se uma lesão no tronco cerebral, que faz a ligação entre os dois, impossibilitar tal passagem, torna-se óbvia a razão da tetraparalisia. A nível cognitivo não existe nenhum declínio e o estado de consciência activa é possível porque não há lesão das áreas superiores encefálicas. Este último pormenor, é o que distingue este síndrome de um estado vegetativo.

As boas notícias é que geralmente, os olhos não são afectados pela paralisia, o que poderá ser o único método que pessoas em tal condição podem comunicar com o meio envolvente. Existe também alguma investigação na aplicação de brain interfaces.

É caso para dizer, “alive and kicking blinking”.

No que respeita ao tratamento, a coisa podia estar melhor. 90% dos afectados com esta condição morre nos primeiros 4 meses; dos que sobrevivem, apenas 5% recuperam motricidade parcial. Geralmente, se a lesão é provocada por um agente específico, como um tumor, é possível submeter o doente a uma intervenção cirúrgica. Contudo, é uma operação de enorme risco porque é também no tronco cerebral que há a regulação dos movimentos respiratórios, do batimento cardíaco, etc. A mais pequena ventania nesta área e acabou-se.

Esta síndrome, apesar de caricata, não é assim tão desconhecida. Para finalizar, dois exemplos nos media onde há referência aqui ao locked-in syndrome.

- Filme: Escafandro e a borboletaThe true story of Elle editor Jean-Dominique Bauby who suffers a stroke and has to live with an almost totally paralyzed body; only his left eye isn’t paralyzed.
- Série: House S05E19Gregory House is injured in a motorcycle accident in Middletown, NY and finds himself in bed next to a patient suffering from locked in syndrome after a bicycling accident. His attending doctor diagnoses brain death, and suggests transplanting his heart into another patient. House notices the patient following the doctors with his eyes, and is immediately interested in taking up his case.

abdominais

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 08 Aug 2009

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É comum a referência cultural aos “abdominais” por termos como um 6-pack, 8-pack (ou 0-pack no meu caso : \), etc. Mas o que são os abdominais? Bolinhas de carne salientes na vossa barriga? Quantos são? A que se deve o seu formato característico?

Musculo Recto Abdominal

Os abdominais não são um grupo de músculos como a terminologia em plural poderia sugerir. Na verdade, à semelhança da maioria dos músculos do corpo, é um músculo par (músculo Recto abdominal), existindo um em cada lado. Estamos a falar duma fita relativamente comprida de tecido muscular que se estende desde as cartilagens das costelas (5ª à 7ª) até à porção púbica do osso da coxa, no seu bordo superior.

A sua característica mais distintiva são os grupos de tecido fibroso intercalado (Tendinous intersection na figura) que dão origem aos tais n-packs. A maioria das pessoas possui 3 grupos de tecido fibroso por músculo, um 6-pack portanto. Um menor número de pessoas tem um 8-pack e um lote ainda mais raro pode ter um 10-pack (sortudos). O treino regular deste conjunto muscular leva à hipertrofia do músculo e aumento do seu tónus basal, levando à sua protrusão relativamente às faixas de tecido fibroso e à formação das famosas “bolinhas”.

Para além de ser bonito de se mostrar às moças, este músculo reveste-se de importância funcional – é fulcral para a flexão do tronco, é auxiliar da expiração e contribui para o aumento da pressão intra-abdominal (importante em reflexos como a defecação ou a micção).

Por outras palavras, a próxima vez que estiverem na casa de banho a fazer o número 1 ou o número 2, reflictam sobre este post e aproveitem para fazer algum exercício : >