o ponto cego
Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 07 Aug 2009
Tags: ilusões, neurociências, percepção, visão
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Sabiam que alucinam quando fecham um olho?
Uma das ilusões ópticas mais comuns prende-se com a identificação do ponto cego fisiológico (blind spot) existente em cada um dos nossos olhos.
A ilusão é extremamente simples, facilmente replicável numa qualquer folha de papel. Ora experimentem:

Fechem o olho direito, fixem a cruz no centro do campo de visão e aproximem/afastem a cabeça do monitor de forma gradual (têm que estar bastante perto); eventualmente, a bola deve desaparecer. Parabéns! Encontraram o ponto cego do seu olho esquerdo.
Vamos perder uns segundos para tentar perceber o que aconteceu. A capacidade de visão inicia-se, em termos anatómicos, nos meios ópticos do globo ocular, que servem de porta de entrada, concentração e orientação do feixe luminoso, levando a que um fluxo de fotões seja captada pela porção sensitiva do olho, a retina. A estimulação desta camada sensitiva leva portanto à transdução dum sinal luminoso para um sinal nervoso (que ocorre nas células fotorreceptoras – cones e bastonetes), veiculado pelo nervo óptico até ao cortex occipital (na parte de trás da cabeça).
Ora bem, a retina é uma camada de células; são os seus prolongamentos (a nível das células ganglionares) que vão formar o nervo óptico. Este abandona a cavidade ocular pelo disco ou papila óptica (Optic disc na figura); neste ponto de emergência do nervo, a retina está desprovida de fotorreceptores; sem fotorreceptores não existente portanto estimulação daquela zona do nosso campo visual, constituindo um escotoma natural, o ponto cego.

Agora que já percebemos porque razão o ponto cego existe, interessa entender ao que é que corresponde ao certo ser cego num ponto. Ao realizar aquela ilusão, quando o ponto desaparece, pronto, desaparece. Vemos branco. Mas é isso que é ser cego? Mais uma ilusão:

Uma vez mais, fechem o olho direito, fixem a cruz no centro do campo de visão, aproximem e afastem gradualmente a cabeça, analogamente à ilusão anterior. O que vêem?
Para os que pudessem ainda ter dúvidas, ser cego não é ver branco. Se realizaram a ilusão correctamente, viram uma linha contínua na localização do seu ponto cego. O cérebro pregou-vos uma partida. A linha não estava lá.
Neste caso, não havendo informação visual para a zona do ponto cego, o cérebro pega na região envolvente e “preenche” o ponto cego. O cérebro adora fazer isso e, geralmente, dá-nos a percepção correcta da realidade, baseado numa série de conhecimentos cognitivos a priori. Ao visualizar uma linha contínua, o cérebro presume que a continuidade se mantém em toda a sua extensão, criando a ilusão.
Contudo, no dia-a-dia, o ponto cego não é preocupante. O corpo humano é, felizmente, abundante em órgãos pares. No caso do olho, a existência dum outro tem uma importância funcional incrível; não é apenas mais um, é sinérgico. O campo visual de um olho sobrepõe-se ao do olho contralateral na zona correspondente ao ponto cego; a visão binocular permite que, ao invés duma mera reconstrução cerebral com base na envolvência, seja usada a informação do outro olho para aquele ponto, levando a sua representação fiável. Não é por acaso que qualquer ilusão do género requer que feche um dos olhos.
Mas não fiquem tristes, a visão está cheia de mentiras, e ainda bem. Ver é uma construção. O olho é um órgão fenomenal, não haja disso dúvida, nenhuma câmara lhe faz sombra. Mas não passa duma ‘ferramenta’. O processamento visual está todo nas nossas cabeças. É algo que continuaremos a explorar nos próximos posts.
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