Um amigo perguntou-me, provavelmente já esperando que eu me perdesse em divagações, se existia alguma causa ou fundamento biológico para a pedofilia. Tal motivou alguma pesquisa da minha parte, pelo que resolvi partilhar algumas das minhas descobertas.
A mente e o corpo são indissociáveis; é evidente que qualquer psicopatologia (como é o caso da pedofilia) possui uma ligação biológica; igualmente, para a maioria destas, existe uma etiologia (causa) multifactorial, que depende do binómio genética-ambiente, a genética dá as cartas, o ambiente baralha-as.

A pedofilia é uma doença do foro psiquiátrico que se caracteriza por pulsões e comportamentos sexuais orientados para crianças pré-púberes.
Causa? Incerta. Os estudos abundam mas ainda não foi comprovada inequivocamente qualquer relação de causa-efeito. Existem sim associações, isto é, maior probabilidade de manifestação da característica A num indivíduo pedófilo do que na população em geral, sem que daí se possa extrair um nexo de casualidade evidente.
Nas minhas pesquisas, tive a oportunidade de ler um artigo que explora associações entre a pedofilia e alterações cerebrais.

Neste artigo foi feito um estudo de comparação de grupos. De maneira a eliminar qualquer bias extra-pedofilia, foram comparados pedófilos do sexo masculino, metade patologicamente orientado para crianças do sexo masculino, metade para o sexo feminino. O grupo de controlo era constituído metade por heterossexuais e metade por homossexuais, de maneira a assegurar um paralelismo de afinidade de género. Outros parâmetros foram igualmente matched (idade, educação, etc).
Para avaliar a existência de diferenças, recorreram à ressonância magnética, uma técnica imagiológica. Para os geeks de vós, usaram um técnica chamada VBM – voxel based morphometry. Um voxel é um pixel volumétrico; em linhas gerais, agrupam os sujeitos em grupos (pedófilos e controlos), fazem um averaging, e comparam voxel a voxel em busca de diferenças.
O que encontraram?

Output gráfico da VBM
Sem grandes detalhes anatómicos, a verdade é que foram encontradas diferenças significativas. Com detalhes, para quem os quiser ler, verificou-se diminuição do volume de matéria cinzenta no putamen, nc. accumbens, cortex orbifrontal e cerebelo no grupo de sujeitos pedófilos.
A interpretação da figura é simples, as zonas vermelhas representam diminuição de massa cinzenta, na primeira slice temos zonas vermelhas no cerebelo, no segundo corte a nível do cortex orbifrontal, etc…
Por fim, pergunto aos que lerem isto, da mesma forma como me perguntei a mim mesmo, que valor tirar desta informação? Vamos diagnosticar pedófilos? Fazer exames genéticos como quem faz uma amniocentese ou uma ecografia pré-natal? Vamos entrar numa onda à Minority Report onde a sentença antecede o crime?
Este último parágrafo foi um pouco sensacionalista, confesso; a informação contida neste artigo nunca permitiria diagnosticar pedófilos; as alterações encontradas são por exemplo comuns a portadores de doença obsessiva-compulsiva, com a qual a pedofilia tem algumas semelhanças; como disse em cima, é uma associação, não uma relação de causa efeito!
A reter deste post: se nos esforçamos o suficiente, vamos sempre encontrar alguma coisa, seja qual for a doença, um gene, uma hormona, uma proteína, um factor ambiental; vamos sempre encontrar associações, a mente marca o corpo e vice-versa. Não tenho dúvidas que, e mudando de doença, se comparassem um grupo de padres (ou indivíduos normais, não sejamos preconceituosos) e um grupo de psicopatas, as diferenças abundariam. O mesmo entre indivíduos “espertos” e “burros” e até “feios” e “bonitos”.
Não há muito tempo atrás Adolf Hitler seleccionava indivíduos no seu ideal eugénico. No futuro, o conhecimento poderá levar à tentação, e a tentação levará a…prefiro não saber.
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eu sou estudante e para minha feira de ciências eu escolhi a pedofilia como tema pois é um tema que me deixa indignada eu não acho que todos os pedófilos são doentes alguns tem uma doença sim de nome=falta de vergonha na cara aguda.
Olá Virgínia!
Antes de mais obrigado pelo teu comentário.
O teu comentário levanta, a meu ver, duas questões importantes.
Primeiro, o que é ser doente, que critério (objectivo?) é usado para destrinçar a condição de normalidade e doença? Existem definições e comités para isso claro está, mas, em termos de senso comum, é uma questão que deixo para a reflexão de todos.
Em segundo lugar, a pedofilia será condenável sob o ponto de vista em que é uma pulsão biológica contra-natura ou porque não é aceite socialmente? Isto é, e dando um exemplo incrivelmente idiota: andar nu é para qualquer animal natural, mas socialmente recriminável em sociedade na raça humana.
Apenas quis com isto deixar alguns pontos que acho interessantes se quiseres vir a explorar um lado mais polémico no teu projecto para a feira de ciências.
Abraço,