T9, pré-adolescentes e uma primeira achega à neuroplasticidade

T9, pré-adolescentes e uma primeira achega à neuroplasticidade

Predictive text messaging changes the way children’s brains work and makes them more likely to make mistakes generally, a study has found.

Scientists say the system, which involves pressing one key per letter before the phone works out what word the user wants to type, trains young people to be fast but inaccurate.

They claim this makes them prone to impulsive and thoughtless behaviour in everyday life.

Gosto de pensar que sou ‘cool’ por escrever mensagens escritas à maneira antiga, sem a chamada ‘escrita inteligente’. Sempre achei que o sistema tira alguma liberdade; se por um lado diminuiu a densidade de abreviaturas, de “k”s, etc, não o fez à custa dum esforço activo dos utilizadores; simplesmente o sistema assim o obriga para dele fazer uso.

Feito o “à parte”, vamos à notícia e a uma pequena reflexão crítica sobre esta. Não é a primeira vez que ouvimos dizer que a tecnologia, nas suas diferentes variantes embrutece o utilizador. São as calculadoras, os Magalhães, etc.

Se há fundamento? Há. Pessoalmente, não vejo maneira de suavizar a realidade. O nosso desenvolvimento pessoal faz-se à custa de desafios; tudo o que torna a nossa vida mais fácil, não nos faz mais espertos. Sou só eu que me lembro que o Son Goku (e os restantes elementos daquela grande raça que são os Saiyans) ficava sempre mais forte depois duma valente carga de porrada? Se até os desenhos animados percebem isto…

O nosso cérebro desenvolve-se em resposta ao ambiente. E não é também segredo que quanto mais jovem se é mais fácil é aprender. A base neurológica da aprendizagem é diversa, ainda mal compreendida (por mim e penso que pela ciência em geral) mas resume-se à proliferação neuronal (principalmente nas crianças) e à alterações sinápticas – a sinapse é a conexão entre dois neurónios; se pensarmos analogamente a um circuito eléctrico, uma sinapse é facilitada quando se diminui a resistência à passagem de corrente, inibida na situação inversa. O equilíbrio entre facilitação e inibição sináptica pode estar na base de fenómenos de neuroplasticidade, a capacidade de o cérebro se adaptar, anatomica- e funcionalmente, a um ambiente solicitador.

A neuroplasticidade é uma coisa fantástica, que irei aprofundar noutros posts. Este fenómeno é particularmente agressivo em casos de amputações, cegueira, etc; tudo situações onde ocorre um shift brutal nas nossas necessidades de interacção com o ambiente; o estudo da reorganização cerebral, anatómica e funcional, alicia a comunidade científica; diz-se por aí que os cegos desenvolvem todos os outros sentidos – não será certamente por acaso. Também os acidentados com défices da motricidade – a fisioterapia é essencialmente o tal estímulo ambiental para a neuroplasticidade de modo a recuperar essa capacidade, criar e facilitar novas ligações, já que as anteriores ficaram irreversivelmente lesadas.

No caso específico do T9 o que temos é, num primeiro nível, um desprezar da ortografia num sentido estrito. Aquela ‘merda’ até mete os acentos, as cedilhas. Num segundo nível, é reforçada a pulsão do imediato: quero, posso e mando. Esta é a tese da notícia. Acontece que um corrector ortográfico com tendência para o facilitismo usado e abusado por jovens pré-púberes, altamente voláteis a fenómenos de neuroplasticidade, incorre naturalmente numa menor estimulação para uma ortografia correcta. Escrever bem (ou fazer contas de cabeça, cf. calculadoras) é um acto mecânico – o treino facilita a sinapse (se quisermos por isto num ponto de vista simplista).

Por outro lado, para quê mecanizar aptidões que já não são tão necessárias? Isto é discutível, é certo. Nem eu concordo com o que acabei de escrever. Acho que se deve escrever bem, porra. Mas o essencial é que as crianças continuem a ser estimuladas para processos cognitivos básicos de memorização, mecanização, abstracção, raciocínio, etc. Se isso deixou de ocorrer pelo cálculo (calculadoras) ou pela escrita (correctores ortográficos), ao menos que o seja por outras vias (os jogos de computador por exemplo). Facilitamos numas coisas, temos que puxar por outras.

Ainda assim, escrever bem é importante. Sinto um arrepio na espinha quando vejo certas calinadas. Até as minhas. Isto de ter risquinhos vermelhos por baixo das palavras falaciosas, de ler menos do que devia e falar demais do MSN faz as suas mossas, até em mim que já não sou nenhuma criança.

O conselho que este vosso autor vos deixa é simples. Estamos todos a apodrecer um bocado, a tentação está à nossa volta. Mas para isso Deus inventou o Sudoku*. Ámen.

Daily Mail via Gizmodo

* – que odeio. Mas perceberam a ideia.


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2 comentários a “T9, pré-adolescentes e uma primeira achega à neuroplasticidade”

  1. sandra diz:

    qual o blog deste assunto?

    NEUROPLASTICIDADE

  2. José Adalberto diz:

    Apraz-me saber que te mantens «cool» e que não vais em tangas – kapas e tênoves, só porque é … giro, ou é uma moda!
    Escrever bem é uma regra que não devemos alienar. Se calhar, tal como eu e embora de gerações diferentes, tiveste uma boa professora, e isso, mais cedo ou mais tarde, nota-se! E o resultado está aí!

    Quando ao sudoku, é um vício, pá! Outro e mais outro…e mais outro! Até no sossego do wc!

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