álcool e asiáticos – o erro de Camões

álcool e asiáticos – o erro de Camões

O louvor grande, o rumor excelente
No coração dos Deuses, que indignados
Foram por Baco contra a ilustre gente,
Mudando, os fez um pouco afeiçoados.
O peito feminil, que levemente
Muda quaisquer propósitos tomados,
Já julga por mau zelo e por crueza
Desejar mal a tanta fortaleza.

in Os Lusíadas – Canto IX

Baco

Em Os Lusíadas, o povo português enfrenta  Baco, o Deus da pinga, como um dos principais antagonistas no caminho para Índia. Este facto sempre me causou confusão, confesso, sendo nós um povo tão dado à bebedeira. Propositado ou não, Camões comete então aqui uma falácia. A existir, Baco joga, certamente, a nosso favor. Vejamos.

Este vídeo é engraçado porque temos o ex-ministro das finanças japonês a discursar, ébrio, na cimeira dos G7; é também triste porque, não há muito tempo (já depois de ter abandonado o cargo), este senhor suicidou-se. Fora este lamentável facto, o vídeo realça o famoso estereótipo da fraca tolerância dos asiáticos em geral ao álcool.

Quando ingerimos álcool, este é rapidamente absorvido, a maioria logo no estômago, algum também no intestino mais proximal. Pela veia porta chega-nos ao fígado e aí, caro leitor, começa ‘a festa’.

O álcool é essencialmente destoxificado, no fígado, por 3 vias bioquímicas distintas, a saber:

a) enzima ADH – Álcool Desidrogenase
b) sistema enzimatico MEOS – Microssomal etanol oxidizing system (maior actividade a grandes concentrações de álcool)
c) uma via não-oxidativa (não representada na figura) envolvida na síntese dos ácidos gordos (fígado gordo e o alcoolismo, rings a bell?)

Alcool - Metabolização

A enzima ADH (e o sistema MEOS) vão converter o álcool a acetaldeído. Em seguida, a enzima acetaldeído desidrogenase (ADLH – ADLH2 é a forma mitocondrial desta enzima; a ADLH1 actua no citoplasma) irá convertê-lo a acetato, que eventualmente será transformado em dióxido de carbono e água, um final feliz.

Acontece que o acetaldeído é, nesta via metabólica, o composto responsável pelo quadro de rubor, disforia, elevação da temperatura da pele, desconforto abdominal, fraqueza muscular, taquicardia, etc.

Acontece também que 85% dos asiáticos (com antepassados mongolóides) têm uma variante genética da enzima ADH que lhes permite uma conversão muito mais rápida do álcool a acetaldeído. Isto não seria necessariamente uma coisa má se a enzima ALDH2 desse conta do recado, eliminando o acetaldeído. Porém, entre 8 a 45% deste grupo populacional não apresenta também a forma enzimática ALDH2 (têm apenas a ALDH1, de actividade catalítica largamente inferior).

Resumindo, os amaldiçoados geneticamente com estas duas condições, além de formarem acetaldeído a uma velocidade muito superior, são incrivelmente lentos a eliminá-lo, acumulando-se acetaldeído e causando o conjunto de sintomas acima descrito!

Yay, estou bêbado

Ora bem, Baco não queria que chegássemos à Índia. A Índia, enquanto subcontinente pertence à Ásia, ergo, asiáticos. Custa-me a crer que Baco, que alegadamente tanto celeuma fez com a nossa viagenzinha, nos tenha dotado duma prodigiosa capacidade de tolerância ao álcool. Já os ‘seus’ asiáticos, além da pila pequena, não aguentam a pinga. Get your facts straight, Camões!


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Um comentário a “álcool e asiáticos – o erro de Camões”

  1. João diz:

    Um dos melhores textos que li ultimamente… Parabéns!

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