motion induced blindness

motion induced blindness

Em 1991, Ramachadran caracterizou um fenómeno visual que, numa tradução literal, é designado por cegueira induzida pelo movimento (Ramachandran, V. S., & Gregory, R. L. 1991. Perceptual filling in of artificially induced scotomas in human vision. Nature, 350, 699-702). Relaxem, o que vos vou mostrar não vos tornará cegos na acepção clássica da palavra.

A seguinte animação (peço aos que nos seguem por feeds a amabilidade de acederem a este post através do site para que a possam visualizar) pretende ilustrar este fenómeno. O que lhe peço, estimado leitor, é que (1) fixe o ponto central e (2) atente ao que acontece à sua percepção dos pontos amarelos circundantes.

Em princípio deverá ter notado que, eventualmente, os pontos amarelos desaparecem, ora um de cada vez, ora todos. Porquê?

O nosso sistema visual é em grande medida o produto de milhares de anos de pressão selectivas continuadas, favoráveis à nossa sobrevivência contra uma grande variedade de predadores. Em boa verdade, até podemos não ser os seres cuja visão está mais optimizada para tal. Tome-se por exemplo as águias, que não possuindo visão cromática (cegas para as cores), possuem uma superior capapacidade de discriminação de contraste – uma optimização para a caça e visão à distância.

Ao fixarmos o ponto central, a informação relevante para o nosso sistema perceptual é o movimento. O movimento está associado ao perigo. Uma mosca que esteja paradinha no canto da vossa sala em princípio passará despercebida. Só darão por ela quando começar a deambular e o seu rápido movimento despoletar um trigger de alerta no vosso sistema perceptual.

Analogamente, nesta animação, é descartada a informação estática, sendo superimposta a cinética da frame em movimento. E note-se, não é preciso grande movimento – se brincarem com a velocidade de rotação verão que esta ilusão ainda se verifica para pequenas velocidades. Se activarem a opção ‘grating on‘, verão que mais que uma cegueira, existe uma reconstrução da zona onde estava o ponto pela informação contida na periferia, daí a manutenção do padrão do fundo.

Outra ‘maneira’ de explicar este fenómeno é enquanto mecanismo de controlo de danos do sistema visual. Imaginem que, por qualquer fenómeno patológico, a vossa visão daquele ponto estava alterada e originava algum género de artefacto – uma maneira elegante de resolver esse problema é descartar essa informação e reconstruir com base na envolvência visual periférica.

Por fim, se quiserem esmiuçar uma pouco mais o vosso sistema perceptual, tentem, em vez de fixar o ponto central, fixar um dos pontos amarelos. Em princípio também o ponto central (verde) se tornará amarelo. Expliquem lá esta.



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3 comentários a “motion induced blindness”

  1. Joás Mota diz:

    Milhares de anos de pressão…. ????

    Pra mim esse sistema parece eficiente demais pra ser fruto do acaso.

    Uma coisa tão eficiente assim, só pode ser fruto de planejamento.

  2. MTR diz:

    Caríssimo leitor,

    Não me parece que, para uma pessoa de fé, seja difícil unir uma teoria evolucionista de raiz darwiniana e exclusivamente científica com a noção de criação inteligente, que supõe uma intervenção divina.

    Com efeito, se considerar o universo como uma criação inteligente, subjacente a um plano orquestrado por uma entidade superior, a evolução, a vida e os seus mecanismos mais não são que uma expressão de um processo natural intrínseco a esse plano.

    Embora um pouco avesso à religião nos seus cânones formais, é uma visão que não entra em conflito com o meu cientista interior, uma vez que não põe em causa a ciência; apenas interpreta o seu propósito ulterior sob um ponto de vista abstracto, reflexivo, filosófico e, acima de tudo, pessoal.

  3. Iasmin diz:

    Parabéns! Excelente post! Também seria interessante um falando especificamente sobre esse efeito de transposição do fundo (pelo que andei lendo, esse efeito nos proporciona a ilusão do hipnotismo).

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