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Como já perceberam, este post está na verdade dividido em três, cada um focando assuntos diferentes mas complementares e constituintes do mesmo todo. Na primeira parte faço uma pequena introdução e abordo a questão da genuinidade vs dissimulação. Na segunda parte vou referir os sinais fisiológicos (e portanto, fortes indicadores) da ocorrência duma mentira. Na terceira parte irei falar sobre os sinais não-verbais mais comuns (e passíveis de serem controlados) incluindo micro-expressões, terminando com uma conclusão e apanhado geral.
#1:
Mentir faz parte do nosso dia-a-dia.
Robert Feldman estudou 121 casais enquanto estes conversavam e concluiu que 62% dos participantes diziam em média duas ou três mentiras a cada dez minutos. Noutro estudo, James Patterson entrevistou 2000 americanos e descobriu que 91% mentiam regularmente tanto em casa como no trabalho.
As diferenças enormes entre homens e mulheres.
Homens, perdoem-me por dizer isto mas as mulheres estão melhor equipadas a nível de hardware tanto para conseguir pregar uma mentira credível como para apanhar um mentiroso. Isto é facilmente explicado a nível evolutivo e hormonal. Pelo lado evolutivo, durante a pré-história, enquanto os homens iam caçar e desenvolviam a capacidade de concentração para uma única tarefa, estimulando a visão em túnel e faculdades espaciais (hemisfério direito), as mulheres ficavam na gruta a tomar conta dos filhos, desenvolvendo a comunicação, interacção social (hemisfério esquerdo) e a capacidade de executar várias tarefas ao mesmo tempo. Por outro lado, a própria hormona caracterizante do sexo masculino, a testosterona, tem efeito inibidor em relação ao desenvolvimento e crescimento do hemisfério esquerdo. Conclusão: As mulheres possuem áreas cerebrais especializadas e mais desenvolvidas do que homem nas aptidões sociais e de comunicação (hemisfério esquerdo); assim, detectam mais facilmente incongruências entre discurso verbal e não-verbal – o que é a base para apanhar um mentiroso. Pela mesma razão, conseguem construir uma mentira mais facilmente e recheada em pormenores, enquanto que os homens hesitam e ficam-se por mentiras simples. Curiosamente, e outra vez mostrando-se mais espertas que os homens, as mulheres quando mentem tentam (inconscientemente) estar ocupadas com alguma coisa para que minimizem os desfasamentos entre discurso e posturas/expressões, o que a poderiam levar a ser apanhada.
Incongruências entre discurso verbal e não-verbal.
Como já disse, esta é a base para apanhar um mentiroso. O discurso verbal é o indicador menos fiável da ocorrência de uma mentira pois pode ser ensaiado. Assim, é preciso procurar evidências noutros lugares: micro-expressões, movimentos involuntários, activação do SNA, etc que não estão de acordo com o que a pessoa está a dizer. Acham difícil estar a prestar atenção às duas coisas ao mesmo tempo? Então vão ficar surpreendidos quando vos disser que houve um estudo que demonstrou que a linguagem não-verbal (gestos, expressões) representam 60 a 80% do impacto da mensagem, enquanto que os sons representam 20 a 30% e só depois é que vem o resto, as palavras, representando 7 a 10%. Exemplo: O Freud, génio, tinha um paciente que cada vez que falava do casamento, apesar de referir que estava tudo impecável, tirava e voltava a colocar repetidamente a aliança no dedo. Freud reparou na incongruência entre discurso e esse gesto peculiar e foi investigar. Conclusão, as coisas não estavam assim tão bem.
Distinguir o que é genuíno do que não é
a) Sorrisos
Nos inícios do século XIX, um cientista francês chamado Guillaume Duchenne estudou os diferentes tipos de sorrisos, recorrendo a estimulação eléctrica dos músculos e por análise de cabeças decapitadas pela guilhotina. Ele chegou à conclusão que os sorrisos são controlados por dois conjuntos de músculos: zygomatic major e orbicularis oculi. Quando sorrimos, o primeiro é aquele que torna possível que mostremos os dentes por arrepanhar a carne nas bochechas. O segundo é aquele que estreita os olhos e dá aquelas rugas de lado. De que é que isto nos serve? Porque o zygomatic major é controlado conscientemente e o orbicularis oculi não, já são independentes e só aparecem num sorriso genuíno. Conclusão: um sorriso dissimulado só envolve a boca.

Esta foto ilustra bem a diferença.
Outra coisa, desconfiem se alguém vos sorrir e não mostrar os dentes. 90% dos sorrisos genuínos mostram os dentes. Isto aplica-se especialmente às mulheres que possuem um tipo de sorriso característico chamado tight-lipped smile; usam-no quando estão enfastiadas mas querem ser simpáticas, consiste em sorrir apenas com a boca, premindo um lábio contra o outro, sem mostrar os dentes. (ver imagem)
b) Ouvir
Mais subjectivo mas ainda assim digno de referir, quando as pessoas ouvem com atenção e estão genuinamente interessadas no que a outra diz, normalmente inclinam ligeiramente a cabeça para o lado, inclinam o corpo para a frente (se tiverem sentadas) e não têm nem as pernas nem os braços cruzados (se estiverem, também se pode dar o caso de estarem interessados no que a outra pessoa diz mas não receptíveis ao conteúdo). A posição do corpo e pés também é importante. Se estivermos a falar com alguém sentado e essa pessoa tiver o corpo virado para uma saída, ou alguém já de pé com um pé apontado para a porta, pode ser indicativo que essa pessoa não está assim tão interessada no que estamos a dizer e inconscientemente quer-se ir embora.

Reparem nos elementos que referi acima. Cabeça ligeiramente inclinada, posição dos braços aberta, corpo e olhar virado para a pessoa em questão. Tudo indica que está a prestar atenção à pessoa que fala; aquela expressão de avaliação ou desagrado relativamente ao conteúdo é que já não é tão positiva.
c) Comunicar
Desde o momento que os proto-humanos inventaram as primeiras armas, qualquer encontro pacífico entre duas tribos começaria pelo que se tornou o sinal universal de sinceridade e transparência. Os cães mostram o pescoço; nós mostramos as palmas das mãos, transmitindo à outra pessoa que não escondemos nada (ou nenhuma arma como seria no caso da pré-história). Assim, se alguém vos fala com sinceridade, irá provavelmente mostrar-vos as palmas das mãos à medida que vai discursando. Contudo, cuidado. Há pessoas (por exemplo vendedores ou políticos) que se podem fazer valer deste truque como dissimulação. Nesses casos, há que estar atento a gestos complementares, em busca de incongruências.
O que não é bom:
1. Mãos nos bolsos – pode ser nervosismo, insegurança ou ter algo a esconder.
2. Braços cruzados – postura defensiva, especialmente se for com os punhos cerrados, o que revela impulsos agressivos.
3. Segurar mãos atrás das costas – Relacionada com o auto-controlo. É uma postura inconsciente de combate a uma frustração, como se estivesse a impedir o próprio de tomar um comportamento impulsivo e irracional. Pode evoluir para o contacto atrás das costas se dar a nível mão-pulso e mão-braço. Quanto mais alto a mão segurar, maior a frustração. Por isso, se alguém vos estiver a dirigir a palavra com a postura abaixo, desconfiem, pois é bastante defensiva.

d) Simetria nas expressões faciais
No que toca à avaliação da genuinidade de emoções expressas facialmente, este talvez seja o factor que mereça maior destaque. Paul Ekman durante os seus estudos chegou à conclusão que aparentemente as expressões voluntárias e as espontâneas possuem circuitos neuronais distintos. Como consequência observável de tal facto, as expressões espontâneas, involuntárias e genuínas tendem a ser simétricas.


Conforto ou dissimulação
Para finalizar a #1, uma questão que muita gente coloca. Falou-se bastante em posturas defensivas como cruzar os braços ou pernas, apertar as mãos atrás das costas, entrelaçar os dedos à frente com os cotovelos apoiados na mesa, etc. Neste sentido, vão haver sempre muitas pessoas a dizer que costumam tomar posturas como as supracitadas sem se sentirem necessariamente frustradas, inseguras e à defesa. Dizem eles: “é como estou confortável”. Contudo, uma coisa não invalida a outra. O Ser Humano está inserido num meio social; quando passeamos pela baixa, desconhecemos a maior parte das pessoas; elevador num shopping, idem; cinema, idem; congresso científico, idem; hipermercado, idem. Isto tudo para dizer que faz sentido que a nossa postura default seja defensiva (oscilando de pessoa para pessoa); portanto é confortável dado que nos sentimos protegidos dessa maneira. Agora num jantar de natal por exemplo, é extremamente raro verem alguém de braços cruzados. A lição a tirar daqui é o do contexto. Na conclusão (#3) aprofundarei o papel do contexto e o perigo de cometer o erro de othello.
>> dissecando a mentira e dissimulação #2
Artigos relacionados:
ja sabia disso mas ai ta muito bem explicado
parabens!
Eh pah, sempre gostei de saber estas coisas =D
ta muito bom
sao mesmo verdade estas cenas!
altamente
‘MAS’,
adoro esse tipo de material que aborda sobre ‘o corpo fala’… Se for parar pra perceber (pode não ser uma regra), mas sempre quando pessoas tem atitudes inesperadas tem essas ações corporais como prévia.
Parabéns pelo post!
Muito fixe mas adoro mesmo o Lie to Me
Parabéns pelas informações. São reais e muito inteligentes. Demonstram genuino conhecimento dos fatos. Muito bom, continue estudando, ainda temos muito que aprender sobre nossas capacidades. . .