dissecando a mentira e dissimulação #2

dissecando a mentira e dissimulação #2

Última revisão: 4 de Novembro de 2009
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Como já perceberam, este post está na verdade dividido em três, cada um focando assuntos diferentes mas complementares e constituintes do mesmo todo. Na primeira parte faço uma pequena introdução e abordo a questão da genuinidade vs dissimulação. Na segunda parte vou referir os sinais fisiológicos (e portanto, fortes indicadores) da ocorrência duma mentira. Na terceira parte irei falar sobre os sinais não-verbais mais comuns (e passíveis de serem controlados) incluindo micro-expressões, terminando com uma conclusão e apanhado geral.

#2:

Para apanhar uma mentira, uma maneira relativamente fiável e já exequível é através da análise de certos sinais fisiológicos decorrentes do esforço consciente activo que fazemos para construir uma mentira e pelo medo de sermos apanhados.

Deste modo, faz sentido começar por explicar a base biológica por detrás de todas as modificações corporais involuntárias que já vamos ver em seguida. Na verdade, é muito simples. O nosso sistema nervoso (SN) está dividido no central (SNC) e periférico (SNP). Dentro do SNP, temos o somático e o autónomo (SNA). Finalmente, dentro do SNA temos o simpático e o parassimpático. Este SNA é o que regula muitas das coisinhas automáticas que fazemos: abertura das pupilas, batimento cardíaco, sudação, número de vezes que piscamos os olhos, salivação, e por aí fora. Ao contrário do que o nome indica, o sistema nervoso simpático não é bem simpático, pois é o que implica activação. O parassimpático é de relaxamento. Por exemplo, o simpático acelera o nosso coração; o parassimpático abranda. Deste modo e como disse antes, quando mentimos estamos a puxar pelas nossas capacidades mentais e experimentamos um medo (o de ser apanhado), o que nos leva a activar o SN simpático.

autonomic

Enquanto que é possível suprimir alguns movimentos involuntários corporais como os que vamos abordar no #3, estes em questão, os sinais fisiológicos, são muito difíceis, ou mesmo impossíveis de impedir a sua manifestação. Contudo, há alguns casos em que é possível mentir sem haver sympathetic arousal; assunto que irei abordar no final deste #2.

Sinais primários de mentira

a) Pupilas

pupils

Como podem ver na imagem relativa às alterações fisiológicas desencadeadas pelo SN simpático, as pupilas vão sofrer uma dilatação involuntária (sem que tenhamos controlo sobre isso). Contudo, as pupilas têm um problema – a sua dilatação/contracção pode-se dar por várias razões: luz, drogas, stress, estados de espírito positivos/negativos, etc. Assim, não deverá ser usado como um elemento isolado no processo da detecção de mentiras. Se for, assegurem-se que estão num ambiente neutro, sem variáveis parasitas como as supracitadas.

b) Pulsação

Aí está o óbvio. SN simpático é sinónimo de elevado batimento cardíaco. Quando mentimos, a aceleração do nosso coração pode ser explicada por 2 triggers que levam à activação do SNS:
1. Medo – fundamentado facilmente numa base evolutiva. Se olharmos para os tempos primordiais do Ser Humano, percebemos a necessidade que temos de tal estado; a nossa sobrevivência depende da capacidade de sentir medo, e de conseguir executar uma resposta rápida que nos ponha a salvo. Tradicionalmente, este medo será por exemplo um urso esfomeado a correr na nossa direcção. Respondemos através do SN simpático, libertando adrenalina em grandes quantidades e experienciamos força e rapidez sobre-humana durante um breve período de tempo terminando numa resposta de aproximação ou evitamento, aquilo que se chama fight or flight response. Fica assim explicado porque o nosso coração bate mais depressa quando sentimos medo.
2. Activação cerebral – estamos a puxar pelas nossas faculdades mentais criativas quando mentimos. Projectamos cenários, pormenores, pessoas envolvidas; fazemos associações para evitar desfasamentos e incompatibilidades entre a nossa história e as experiências de quem ouve. Esta actividade mental toda implica a necessidade duma maior quantidade de oxigénio a chegar lá acima ao CPU, ou seja, aumento da pulsação (e também quase sempre, aumento da frequência respiratória).

Hoje em dia, é o elemento principal dum polígrafo, o qual irá ser abordado daqui a pouco.

c) Sudação

Existem dois tipos de glândulas ligadas à sudação: apócrinas e écrinas. As primeiras situam-se na zona das axilas e genitais; a sua função tem sido alvo de debate, supõe-se que tem a ver com a comunicação odorífera (incluindo feromonal). As écrinas estão dispostas por todo o corpo, com densidade acentuada nas mãos e pés e a principal função é a de termo-regulação.

Como já estão a adivinhar, o que dispara a libertação de suor através das écrinas é o nosso amigo SN simpático (com um pormenor curioso; apesar de ser simpático, é também colinérgico). Não é novidade que as pessoas ansiosas costumam suar bastante das mãos ou pés. O mesmo princípio aplica-se à mentira, ao medo de ser apanhado.

tsd203

O suor é composto por 90% de água, o que leva a que haja um aumento da condutividade eléctrica da pele no acto de sudação. Partindo deste princípio, desenvolveram-se maneiras de registar a actividade electrodérmica no auxílio à detecção de funcionamento simpático, adaptando-se posteriormente à detecção de mentiras (hoje em dia incorporado no polígrafo).

d) Voz

Indicadores:
1. Rapidez de discurso – Normalmente verbalizamos 150 a 175 palavras por minuto. Quando estamos activados, esse número pode chegar aos 250. Por isso desconfiem quando alguém vos dirigir palavra com uma fluência estranhamente rápida (caso não seja assim normalmente). Significa que está a pensar ainda mais rápido do que fala, por isso das quatro uma: ou quer causar boa impressão, ou está nervoso, irritado ou a mentir (e portanto precisa de pensar rápido para o fabrico essa mentira).
2. Palavras usadas – Do mesmo modo que o discurso fica mais rápido, as palavras “caras”, bem como analogias, metáforas, podem sofrer alterações aquando uma maior activação cerebral (como aumento da sua ocorrência). Outra vez, é importante conhecerem o estado normal dessa pessoa.
3. Frequência respiratória – Mesma merda, maior activação cerebral, maior a quantidade de oxigénio necessária no cérebro, maior a frequência respiratória.

Resumindo, alguns elementos na voz podem ser indicativos de mentira (há outros que não referi como o volume e o tom mas estão ligados a outros estados de espírito, não a mentir concretamente). Mas cuidado, se detectarem o que acima descrevi, pode muito bem implicar outra coisa, como um simples stress ou vontade de ir à WC. (cf. erro de othello @ #3)

Polígrafo

Hoje em dia um polígrafo decente consegue registar:
1. Pulsação e tensão arterial (pseudo-ECG)
2. Alterações no diâmetro da pupila (midríase/miose)
3. Contracções involuntárias de alguns músculos (pseudo-EMG)
4. Actividade electrodérmica da pele (SCR)
5. Frequência respiratória
6. (pseudo-EEG)
7. (Voice Stress Analysiscf.)
8. (fRMI? – cf.)

Ainda assim, o polígrafo não é assim tão eficaz. Uma pessoa pode ter sympathetic arousal tanto por estar a mentir como por estar ansiosa. Os adeptos do uso do polígrafo vão dizer que a capacidade discriminatória é boa q.b., mas na verdade não é bem assim.

É possível enganar um polígrafo? É; especialmente se:
1. Sofrerem de mitomania (acreditarem nas vossas mentiras).
2. Forem um psicopata, sociopata, ataráxico ou outra coisa qualquer que faça de vocês patologicamente “nas tintas”.
3. Tomarem um Valium antes do exame.
4. Inoculação prévia.
5. etc; não é assim tão difícil.

Em jeito de conclusão,

Se pregamos uma mentira e temos medo de ser apanhados, é muito difícil evitar uma série de manifestações fisiológicas. Apesar de não serem exclusivamente indicadores da mentira (aplica-se ao nervosismo), são relativamente fiáveis ao ponto de se chegar a aplicar o polígrafo como material auxiliar em tribunais e na polícia. O mais importante é nunca partir para uma avaliação apenas com base num indicador. Detecção de mentira é sempre com base em clusters.

>> dissecando a mentira e dissimulação #3


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Um comentário a “dissecando a mentira e dissimulação #2”

  1. Kaitlyn diz:

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