dissecando a mentira e dissimulação #3

dissecando a mentira e dissimulação #3

Índice

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Como já perceberam, este post está na verdade dividido em três, cada um focando assuntos diferentes mas complementares e constituintes do mesmo todo. Na primeira parte faço uma pequena introdução e abordo a questão da genuinidade vs dissimulação. Na segunda parte vou referir os sinais fisiológicos (e portanto, fortes indicadores) da ocorrência duma mentira. Na terceira parte irei falar sobre os sinais não-verbais mais comuns (e passíveis de serem controlados) incluindo micro-expressões, terminando com uma conclusão e apanhado geral.

#3:

“Hear no evil, see no evil, speak no evil.”

hearseesay

Se uma criança conta uma mentira, põe a mão à frente da boca.
Se ouvimos algo que não queremos ouvir, tapamos os ouvidos.
Se vemos algo que não queremos ver, cobrimos os olhos com as mãos.

O mesmo princípio aplica-se para a mentira e dissimulação, mas os movimentos vão ficando cada vez mais disfarçados e refinados à medida que envelhecemos.

Sinais secundários de mentira e dissimulação

Regra geral, aumenta o número de movimentos que estabelecem contacto entre mão e cara bem como o número de engolidelas em seco, apesar desta última normalmente só ser possível ver nos homens visto que têm a maçã de Adão mais saliente.

a) Tapar a mão com a boca
O cérebro inconscientemente ordena à mão tapar a boca para que pare de mentir. Quem diz mão, diz dedos. Se este gesto for usado enquanto outro está a falar, pode ser porque pensam que esse outro está a esconder alguma coisa, ou então é uma indirecta (até para o próprio) para o outro se calar. Algumas pessoas tentam disfarçar com uma tossidela.

b) Coçar o nariz
Quando as tais catecolaminas são libertadas enquanto mentimos (adrenalina, lembram-se?), estas vão actuar sobre um certo tipo de tecido no nariz, causando inchaço (Também já aqui falei sobre a ligação entre sangrar do nariz e aumento da tensão arterial quando por exemplo há excitação sexual). Esta expansão do nariz é inclusivamente descrita no seio científico como efeito pinóquio, que através da activação das terminações nervosas no nariz, vai levar à tal coçadela.

c) Coçar o olho
Tentativa inconsciente, já disfarçada ainda assim, de tapar os olhos. Ou seja, impedir que quem mente olhe para a pessoa que está a ser alvo de aldrabice. Outra maneira é simplesmente desviar ou evitar o olhar.

d) Agarrar a orelha
Movimento refinado de tapar os ouvidos quando ouvimos algo que não queremos. Tal como coçar o nariz, agarrar ou brincar com a orelha é indicativo de ansiedade. No âmbito de mentir, aplica-se como se não quiséssemos que a outra pessoa ouça as calúnias que estamos a dizer. Ou em alternativa, pode significar desagrado do que outra pessoa está a dizer e portanto inconscientemente, quer que ela pare de falar.

e) Coçar o pescoço
Indecisão. Pode ser usada se estivermos a processar a abordagem ou o contexto da nossa mentira.

f) Puxar o colarinho
Aumento do batimento cardíaco, frequência respiratória e suor torna um colarinho apertado uma coisa muito desagradável.

g) Dedos na boca
Emula a segurança que alguém sente quando estava a mamar no peitinho da mãe. Se alguém não se sente confiante enquanto prega uma mentira, pode utilizar este gesto, como se precisasse de uma festinha na cabeça para lhe dizer que está a ir bem.

Resumindo, há resmas de coisas que fazemos quando mentimos. Contudo, já estes movimentos todos são passíveis de serem controlados, e é precisamente isso que as figuras públicas tentam fazer. Por isso desconfiem também da completa ausência de movimentos. Decorem esta enumeração e melhorem a vossa apresentação numa entrevista ou quando forem apresentar um trabalho.

Para se porem à prova:

Micro-expressões

basicemo

Inicialmente documentado por Haggard & Isaacs, e posteriormente aprofundado pelo Ekman, trata-se em termos simples da existência de curtas e involuntárias expressões faciais quando existe um desfasamento entre o que sentimos e o que dizemos.

Por exemplo, um gajo a falar da sogra que odeia esforça-se para manter uma poker face, mas de vez em quando será inevitável uma micro-expressão de raiva ou nojo como um sneer (fig.), tão rápido que pode ser perdido com uma piscadela de olhos.

sneer

Isto pode parecer tudo muito bonito, mas não é, nem de perto, assim tão óbvio e fiável. Até anda por aí uma série televisiva chamada Lie to Me que exagera a um ponto quase ridículo. É mais para vender do que outra coisa; até já andam a circular programas tipo o vídeo abaixo que supostamente treinam uma pessoa em detectar micro-expressões (até o próprio Ekman comercializa o seu próprio programa de treino).

erro de Othello

Sim, aquela peça de Shakespeare. Othello foi o gajo que limpou o sebo à mulher após a confrontar com uma traição imaginária. A Desdemona, sabendo a tempestade que vinha daquela confrontação, stressava por todos os lados. O Othello falhou em ter em consideração que a mulher podia estar a falar a verdade apesar de parecer que mentia devido ao stress.

A reter, o erro de Othello ocorre quando interpretam mal em tais circunstâncias; fecham-se e reduzem ao julgamento que a outra pessoa mente, quando possivelmente existem outras eventualidades que justificariam aquilo que vocês viram como sinal de mentira ou dissimulação.

Conclusão

Lembrem-se, estes gestos todos são parte de um integrado. Elementos soltos querem dizer pouco ou nada e é arriscado pegar por aí. Uma pessoa pode coçar o nariz porque está com uma inocente comichão ou alergia. Uma pessoa pode estar com a pupila dilatada porque há pouca luz no meio envolvente. Tudo tem que ser analisado como um todo e procurar desfasamentos entre discurso e posturas. Por esta mesma razão é que existem bons detectores de mentiras humanos sem nunca terem estudado isto. As incongruências são detectadas a nível inconsciente e geram feelings que algo não bate certo. Daí o melhor treino neste campo ser através da convivência social.

Bom proveito.


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6 comentários a “dissecando a mentira e dissimulação #3”

  1. Li os três textos. Realmente ficou muito bom o que você escreveu. Nota 10.
    Adorei a referência ao seriado televisivo Lie To Me, muitas pessoas que eu conheço acreditam que pode ser assim, igual ao seriado. Muito exagero acreditar nisso. Já ouvi dizer que algumas pessoas adquirem manias próprias quando mentem.

  2. ana paula sá diz:

    quanto à série da tv acho que um filme é sempre um filme, embora esta série seja credivel. Quanto ás suas opiniões são opiniões, mesmo que sejam ou não crediveis!Aconselho quem se interesse por este assunto a ler e ouvir pelo menos 2 opiniões, porquehá que fazer discernimento e respeitar todos!OBRIGADO

  3. MAS diz:

    Credível, sim. Realista? Muito pouco.
    Isto não é uma opinião, é uma atestação.

    Estou dentro q.b. da “ciência” por detrás da série Lie To Me para poder afirmar que só o simples cenário de alguém discernir uma mentira da verdade com base numa expressão facial é hilariante.

  4. Eu diz:

    Hilariante baseado em que?
    Dizer que está por dentro qualquer um diz…
    Então qual a ciência por detrás da série lie to me.
    O próprio Paul Ekman tem um blog e comenta cada episódio indicando onde está a ciência e o que é passivel de erro.

  5. MAS diz:

    Lie to me é uma série cuja ficção é largamente superior à realidade. Caso assim não fosse, suponho que em vez de polícias, forças especiais e unidades caninas tínhamos um batalhão de psicólogos especializados em vá-se lá saber o quê.

    Como disse antes, é impossível discernir uma mentira duma verdade apenas com base numa expressão facial. Não existem expressões faciais que manifestam uma mentira. O que é possível (e é a base da série em questão) é detectar uma incongruência entre uma expressão facial e conteúdo verbal. Caso este não seja convergente, aí sim, pode-se estar perante uma mentira.

    Para perceber isto é preciso ter em conta que o trabalho do Ekman incide especialmente sobre as emoções básicas. Ele é um dos que defende que possuímos um conjunto de emoções irredutíveis e para tentar fundamentar isto apoiou-se que cada emoção é caracterizada por uma expressão facial única (há por exemplo quem argumente pelo lado fisiológico).

    Deste modo, não existe uma expressão facial de “mentira”, existe sim de medo, surpresa, alegria, tristeza, desprezo, etc. A mentira torna-se assim “possível” quando alguém diz “gosto de x pessoa” e no entanto está com comportamento não-verbal e micro-expressões de desprezo.

    Posto isto reitero que de ciência exacta não tem nada. É subjectivo ao avaliador e não acontece sempre, muito menos em todas as pessoas. É mais um conjunto de ideias que levado ao exagero tornou-se a premissa duma série que por sua vez só popularizou e reforçou ainda mais a noção errada de a prática demonstrada pela série poder ser realista.

  6. MAS diz:

    Nem de propósito, um dia depois, o Vaughan Bell também coloca um post sobre isto no blog dele:

    http://mindhacks.com/2011/10/07/entertainingly-mislead-me/

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