Um soluço é uma contracção espamódica involuntária do diafragma. Como consequência, o diafragma desce (ver figura), o que causa um aumento do volume torácico, criação de uma pressão negativa e entrada abrupta de ar. Como o ar entra ‘à bruta’, aquando do ‘embate’, a epiglote fecha violentamente, causando o *hic*.

Porque soluçamos? Enquanto algumas etiologias (causa) dos soluços são relativamente consensuais e bem compreendidas, existem muitas patologias às quais estão associadas soluços onde simplesmente não se compreende a razão de ser deste sintoma idiota (que em casos extremos pode levar à morte – não pelo soluço, bem entendido, mas porque muitas vezes surgem como sintoma de alguma doença grave, por exemplo do foro cardíaco, ou num pós-operatório).
Galeno, médico e filósofo grego, postula que um soluço não mais é que uma emoção violenta que nos ascende do estômago. Curioso, quase que acerta.
Aquele soluço mais corriqueiro é causado pela irritação dos nervos frénicos (que suprem o diafragma), cujo trigger corresponde muitas vezes a uma dilatação súbita do estômago (por exemplo quando comemos muito depressa) o que por via mecânica estimula os nervos frénicos. Também alimentos picantes ou mesmo o álcool/tabaco são agentes que por uma via química conseguem irritar estes nervos, despoletando os soluços. Por fim, emoções, desde o mais profundo stress à mais exuberante alegria também podem contribuir, por vias menos bem caracterizadas, a um ataque de soluços.

Mais interessante que a exploração das etiologias que despoletam este arco reflexo que é o soluço, é perder algum tempo a pensar no arco reflexo em si. Pensa-se que, à semelhança de muitos outros mecanismos fisiológicos, o soluço corresponde à expressão de um arco reflexo motor primitivo, uma reminiscência evolutiva que nos liga aos anfíbios.
Aquando do desenvolvimento fetal, o nosso reflexo ventilatório normal está, naturalmente, ausente. Por outro lado, in utero, os fetos soluçam. Este movimento inalatório às ‘golfadas’, o soluço, é essencialmente o mesmo reflexo que condiciona a ingestão de água/ar por parte dos anfíbios. Depois do nascimento, principalmente se for prematuro, o recém-nascido pode passar até 5% do seu tempo a soluçar, o que evidencia a imaturidade pulmonar e reforça a ideia do soluço como antecedente evolutivo do reflexo ventilatório usual dos mamíferos.
Além disso, cientistas demonstraram que mecanismos semelhantes inibem soluços e padrões motores ventilatórios em humanos e anfíbios respectivamente. Neste caso, conclui-se que a elevação da concentração de CO2 inibe ambos os fenómenos. Se pensarmos um bocado é o mesmo mecanismo que está na base do acto de respirar para um saco enquanto forma de parar um ataque de soluços.

Mas como parar os soluços? Sinceramente, não vou perder tempo a listar as diferentes técnicas, umas mais popularuchas, outras mais científicas. Até porque a sua eficácia é um factor que está directamente decorrente da causa e da pessoa pelo que, ‘your mileage may vary‘. Não posso contudo deixar em branco uma dica para os leitores mais desesperados, quando assolados por uma crise desses malditos reflexos abichanados:
A 60-year-old man with acute pancreatitis developed persistent hiccups after insertion of a nasogastric tube. Removal of the latter did not terminate the hiccups which had also been treated with different drugs, and several manoeuvres were attempted, but with no success. Digital rectal massage was then performed resulting in abrupt cessation of the hiccups. Recurrence of the hiccups occurred several hours later, and again, they were terminated immediately with digital rectal massage. No other recurrences were observed. This is the second reported case associating cessation of intractable hiccups with digital rectal massage. We suggest that this manoeuvre should be considered in cases of intractable hiccups before proceeding with pharmacological agents.
in Termination of intractable hiccups with digital rectal massage
Já sabem, o fim dos vossos soluços pode estar à distância de um dedo.
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