quem manda em nós?

quem manda em nós?

Novidades

Bom, antes de mais, como aqueles que seguem o nosso twitter já deverão saber, estamos a trabalhar num novo look mais virado para o formato de magazine. Apesar de o tempo escassear, todos sabemos que quem está por trás deste blog, não só roça o limiar psiquiátrico de doença mental, como também possui um rácio fabuloso entre competência e tempo disponível, facto científico o qual nos leva a estimar para o final da semana a entrada em vigor deste novo look.

Findo este aparte, vamos então a um post rápido sobre 2 estudos clássicos de influência social, nomeadamente conformismo e obediência, o primeiro ilustrando o poder que de facto os outros têm sobre nós e como nos conseguem levar a duvidar de nós mesmos, e o segundo de quão longe estamos dispostos a ir se mandarem em nós.

#1 Paradigma de Asch (conformismo)

A experiência em si foi muito simples. Imaginem:

- 1 sala.
- 8 sujeitos, dos quais 7 são comparsas do investigador e 1 que era o sujeito crítico.
- 1 desenho, tipo este:

Agora, os 8 sujeitos sentaram-se numa mesa à frente dum quadro com este desenho. Os 7 amigos do investigador, a pedido dele, organizaram-se de tal modo que se sentaram nos primeiros 6 lugares e no último. Ou seja, o sujeito crítico, tinha que se sentar na penúltima posição.

De seguida, foi-lhes pedido para dizerem em voz alta, um a um, qual dos traços da coluna do lado direito (A, B, C) era igual ao ao traço da coluna esquerda. Tal como acima ficou implícito, a ordem segue de maneira a que o sujeito crítico seja o penúltimo a responder.

Ora, acontece que… os amigos (comparsas) do investigador combinaram todos dizer uma resposta errada. Se a verdadeira resposta para o exemplo acima é o C, eles por exemplo, combinavam dizer todos o A.

Deste modo, o sujeito crítico ouvia 6 pessoas antes dele darem uma resposta que para ele estava errada. Mas aqui é que a porca torce o rabo pois pouco mais de 30% deles responderam de forma errada igual aos colegas anteriores! (e lembrem-se, ele não sabia que eles eram amigos do investigador e que tinham combinado “coisas” com ele)!

Isto é o chamado conformismo e o poder que os outros têm em relação a nós. Todos os sujeitos críticos relataram numa entrevista pós-experimental que relataram sentimentos de dúvida (“estarei maluco?”) e certo é que na altura da decisão pública, 1/3 decidiu ir mesmo pela maioria, em detrimento da sua própria opinião.

Até que ponto isto se estende?

#2 Paradigma de Milgram (obediência)

Ligeiramente mais rebuscada que a anterior, esta abalou ainda mais pilares da civilização. Então o Kubrick, chamou-lhe um figo.

Desta vez, não temos 8 sujeitos, mas 2, dos quais um é o sujeito crítico e o outro é um comparsa, amigalhaço do investigador. Eles entravam numa sala e o investigador comunicava-lhes (falsamente) que iam participar numa experiência para avaliar a memória em diferentes situações e que ia ter que haver um no papel de professor e outro de aprendiz, decidido tirando à sorte. Bom, o jogo estava viciado de maneira que o comparsa ficava sempre no papel de aprendiz.

Então, o aprendiz era colocado numa cadeira eléctrica numa sala, e noutra contígua, ficava o investigador e o sujeito crítico.

Saltando uns pormenores à frente…

As instruções do sujeito crítico foram simples: eram feitas perguntas ao “aprendiz” (comparsa) e cada vez que ele errava (ele já havia combinado com o investigador de antemão que perguntas devia errar e que perguntas devia acertar), o sujeito crítico deveria administrar um choque em intensidade crescente (quanto mais respostas erradas, maior o choque) que iam desde 15 até 450 volts (obviamente que ele não recebia choques eléctricos fortes, o gerador era falso mas tudo era feito de modo a levar o sujeito crítico a crer que de facto ele estava a levar choques – a reacção a cada choque crescente era proporcional).

Começou a experiência.

(De valor referir que 40 psiquiatras foram pedidos a fazerem previsões para este estudo em questão no sentido de quantas pessoas chegariam aos 450 volts? A resposta foi consensual – 0,2%, pois essa é a percentagem de psicopatas na população.)

Detalhes importantes:
- Cada vez que o sujeito crítico perguntasse quem se responsabilizava, o investigador respondia que era ele (investigador).
- Quando o sujeito crítico queria parar, o investigador incitava-o a continuar; a experiência só acabava se ele quisesse parar 4 vezes ou se recusasse por completo.
- Cada choque tinha um rótulo em cima consoante a sua intensidade. Iam, por exemplo, desde “choque ligeiro” até “perigo: choque severo”; 400 para cima a etiqueta já só dizia “XXX”.

O que julgam ter acontecido?

Terão sido 0,2% a chegar aos 450 volts como previram os psiquiatras?

Não.

Foram 65%. Sim, 65% chegaram ao choque de máxima intensidade.
Quase 90% passaram os 300 volts, aqueles já rotulados como “perigo: choque severo” que caso fosse verdade, já poderia provocar danos irreversíveis.

Todos eles na entrevista pós-experimental relataram uma tensão muito grande, queriam parar. Contudo, certo é que grande parte continuou. A desresponsabilização deles pelo investigador e os incitamentos sucessivos (até 4) parecem ter sido cruciais para os levar até ao fim.

Somos todos sádicos lá no fundo? Estaremos todos assim tão dispostos a cometer desumanidades a mando de alguém
Ou será que simplesmente gostamos de ser mandados?

Tirem as vossas conclusões e se quiserem partilhem nos comentários.


Artigos relacionados:

  1. efeito stroop – mas quem manda aqui?
  2. nuances de trabalhar em equipa
  3. the uncanny valley
  4. FFI, um pesadelo de morte.
  5. Q.I., o mito


4 comentários a “quem manda em nós?”

  1. Armando diz:

    Os dois estudos usam duas situações viciadas? Isto deve ter um resultado viciado certamente! Vejam lá… não vá este comentário estar viciado também…. (os comentários num blog bem podiam servir de estudo… )

  2. MAS diz:

    Err, não.

    Situações viciadas? Se o caro Armando deseja estudar alguma coisa, tem que elaborar um método de investigação no qual redunde apenas nas condições relevantes e a serem medidas através da eliminação de qualquer variável parasita.

    Exacto, chama-se m-e-t-o-d-o-l-o-g-i-a.

    Por isso não, não são situações viciadas que originam resultados viciados. São sim estudos clássicos da psicologia social, que juntamente com os de Moscovici e Sherif praticamente ergueram a questão da influência social como um importante objecto de estudo.

    Não teriam tamanho peso caso não tivessem uma metodologia à prova de bala ou próximo disso. Os próprios resultados já foram replicados centenas de vezes e sempre significativos, inclusive em meta-estudos.

  3. Wilson diz:

    Parece-me óbvio que os 65% do 2º estudo tinham a noção que a ‘cobaia’ estava a fazer ‘fita’…

    Sugestão: o investigador torna-se ‘aluno’ e substitui-se o choque eléctrico por um taco de basebol!

  4. MAS diz:

    Na pós-entrevista eles avaliaram se de facto os sujeitos desconfiavam de alguma coisa mas não, se não os resultados não seriam sequer válidos.

    A experiência em si estava muito bem construída nesse sentido e foi apenas para poupar-vos tempo que omiti uma série de pormenores precisamente com o objectivo de a tornar credível.

Deixar um comentário