consciência e viajar no tempo

consciência e viajar no tempo

O que de facto nos torna humanos?

Sim, somos seres “racionais”, ou lá o quer que isso signifique. Sim, fazemos contas de matemática. Sim, temos “consciência”.

Contudo, o que é a razão? os golfinhos têm uma densidade cortical tão grande (até maior) como a nossa; reconhecem-se ao espelho e mostram até mesmo meta-cognição. Já os polvos parecem ter a nossa quase exclusiva inteligência prática e conseguem transformar objectos casuais em ferramentas. Os macacos esses já resolviam quebra-cabeças sem condicionamento.

E contas de matemática? Tanto os bebés como os macacos já o fazem.

Consciência? Sobrevalorizada. A consciência não parece ser exclusiva do homem; quando conduzimos e estamos a puxar pela nossa memória não-declarativa procedimental não estamos a activar zonas propriamente recentes no cérebro humano dum ponto de vista evolutivo; estamos antes a activar o corpo estriado (localização) e temos o mesmo tipo de consciência que os cães têm.

Numa concepção da consciência, António Damásio “descalça esta bota” e aponta para 3 camadas da “consciência”, uma delas exclusiva dos seres humanos, a saber:

  • Proto-self
  • Core Consciousness
  • Extended Consciousness

Proto-self

Proto = primeiro + Self = próprio

Colecção coerente de padrões neuronais que mapeiam a cada momento o estado físico do organismo. Preocupado apenas com a homeostasia e sobrevivência. Não consciente e automático.

A nível de áreas cerebrais situar-se-á no hipotálamo (localização) e tronco cerebral (localização).

Core Consciousness

Consciência Central

Como disse Dawkins, a consciência emerge quando o nosso cérebro gera uma representação do universo que é tão completa que tem que se incluir a ele mesmo. Por outras palavras, esta consciência ocorre quando é criada uma relação entre o organismo e o meio. É constantemente actualizada e com base no estado pontual do proto-self. Consciente. Reconhecer a relação entre organismo e meio é reconhecer-se a si próprio.

Tálamo (localização), córtex cingulado (localização), colículo superior (localização) serão as áreas cerebrais envolvidas nesta camada de consciência.

Extended Consciousness

Consciência Alargada

Sistema de memórias conscientemente acessíveis pelo organismo. Provavelmente será exclusivo dos humanos. À responsabilidade do córtex.

Por memórias não se entende apenas relembrar o passado mas também imaginar o futuro.

Isto é, segundo o Damásio, o que de facto nos torna humanos é a nossa capacidade de viajar no tempo mentalmente.

Não, não é o viajar no tempo mentalmente como naquela série Flashforward. É sim recordar eventos passados (memória declarativa semântica e episódica, alojada essencialmente no lobo temporal médio – localização)  e projectar cenários no futuro.

Contudo, vão ficar surpreendidos quando vos disser que: usamos as mesmas áreas cerebrais para relembrar o passado e imaginar o futuro.

O que faz algum sentido de certo modo até tendendo em conta ao que Freud já dizia sobre os sonhos.  Ou seja, nós não temos propriamente a capacidade de criar. Quando sonhamos, estamos a usar elementos do nosso passado que podemos não nos lembrar conscientemente mas que as memórias já existem – pessoas, locais, situações. No máximo, podemos desconstruir duas memórias separadas e juntá-las numa nova ou aplicar um filtro tipo photoshop. Mas ainda assim, nada é novo.

Os sonhos são assim e o futuro que imaginamos também. Usamos as mesmas estruturas porque o futuro não existe sem o passado já que o primeiro tem que usar obrigatoriamente elementos do segundo. Perguntam vocês então: e sujeitos com amnésia?


Artigos relacionados:

  1. a sobrevalorização da “consciência”
  2. the uncanny valley
  3. a pílula altera as preferências das mulheres?
  4. dissecando a mentira e dissimulação #2
  5. dissecando a mentira e dissimulação #3


2 comentários a “consciência e viajar no tempo”

  1. pauloallex24 diz:

    Este artigo (essencialmente o ultimo paragrafo) fez-me lembrar algo que eu já passei.
    Tive um acidente à quase quatro meses e fiquei com amnésia pós-traumática. Momentos depois de me levantar começou-se a apagar tudo. Dei o número da minha mãe ao senhor que me bateu (estava de mota, bateram-me numa ultrapassagem) e as coisas começaram a desaparecer. Segundo o que me contam, estava tipo um doido no manicómio. Não dizia coisa com coisa. Fui para o Hospital e estive internado 3 dias onde o sono foi a minha principal fonte de memórias. Das primeiras vezes que acordei não me conseguia situar no espaço nem no tempo. Não fazia ideia em que ano estava sequer! Foi muito atrofiante. tinha começado a andar com uma rapariga à pouco tempo e não me lembrava nem quando, nem como nem onde, nem porquê. Tinha acabado o namoro com outra tempos atrás e não me lembrava do motivo. Cheguei a ligar a um grande amigo para ver se ele me auxiliava e 20 minutos depois liguei-lhe a perguntar se lhe tinha ligado e o que me tinha dito porque tinha a chamada efectuada mas não me lembrava de a ter feito.
    Hoje sinto-me quase bom embora do acidente não me lembre de praticamente nada.
    Isto para dizer que, apesar de não ter tido uma amnésia total, na altura não mal me lembrava do passado e nunca pensei no futuro, algo que realmente (agora depois de ler o artigo) parece que seria impossível.

  2. neo diz:

    oq vc me diz entao de viver apenas no presente? esquecendo todas as suposicoes passadas, para nao gerar nenhum pensamento futuro…
    vc diz que nao criamos nada mas apenas lemnbramos iindependente do sonho? mas lhe pergunto jah se desse conta de estar acordado em um sonho, posso voar e fazer oq bem entender? mas como isso eh possivel se nunka voei? acreditar que tudo sao memorias, eh nao acreditar que o universo existe… bom ele existe, soh foi roubado de nos, por nos mesmos.

Deixar um comentário