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a sobrevalorização da “consciência”

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 01 Nov 2009

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Ora, sem me alongar muito hoje, um post rápido.

exórdio:
É consensual (Arnold, Gasson, Lazarus, Stein, Trabasso, Liwag, Zajonc, Oatley, Keltner, Jenkins) que para gerar uma emoção, passamos por um processo de avaliação, a qual se divide em duas etapas: a primária, que ocorre a um nível inconsciente e automático, gerando respostas reflexas de aproximação ou evitamento; e a secundária, onde já entra o cortex orbitofrontal, ou seja, a razão e a planificação per se.

questão-problema:
Será que esta avaliação primária, inconsciente, contribui para a experiência emocional e afecta o nosso comportamento?

Yup.
Numa experiência realizada por Ulf Dimberg e Arne Ohman em 1996, estes investigadores mostraram fotos de cobras a pessoas que possuíam fobia a esse animal de recorte fálico. Contudo, as fotos eram apenas apresentadas durante um tempo subliminar à tomada de consciência do objecto de visualização. Ou seja, as pessoas sabiam que estavam a ver fotos, mas era tão rápido que nem sabiam o que era. Os resultados são simples, apesar de não verem a cobra, as pessoas apresentaram respostas fisiológicas de verdadeiros fóbicos, tal como começarem a suar que nem porcos no dia da matança.

posfácio:
A consciência é sobrevalorizada. Processamos muita coisa, quiçá a maior parte do nosso input sensorial, sem termos noção disso; e algumas vezes, tais “processamentos inconscientes” podem alterar radicalmente o nosso comportamento, o que por acaso é a premissa-chave do conflito emocional psicanalítico – Freud tinha razão.

E com isto, acabou o intervalo. Voltar ao filme, até loguinho.

efeito mozart

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 30 Sep 2009

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O efeito de Mozart preconiza que as habilidades cognitivas dum individuo podem ser temporariamente incrementadas se ouvir Mozart, um efeito mensurável em termos de QI na ordem dos 8 a 9 pontos (estudo publicado na Nature).

Tiremos então um momento para pensar neste caricato efeito. Primeiro, mais do que a música de Mozart teremos que considerar a música genericamente como capaz de aumentar as nossas capacidades temporo-espaciais. Qualquer música? Não, certamente. A música clássica é especialmente apta para nos levar à desconstrução do som, nas suas várias camadas instrumentais, além do seu efeito relaxante, favorável à concentração e à actividade intelectual.

Mais do que este facto, que, embora interessante confesso que não me cause particular surpresa (sempre ouvi música para me concentrar, chamemos-lhe um certo conhecimento empírico deste efeito), espantou-me a quantidade de estudos no seio da comunidade científica que exploram este efeito. Se, por exemplo, fizerem uma query num agregador de artigos científicos, o número de hits em revistas de alto impacto é considerável!

Efeito Mozart

Isto levou-me a tirar duas conclusões. Primeiro, fazem-se artigos científicos sobre tudo. Segundo, tudo merece um artigo científico :)

aprender com os erros, yeah right

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 10 Sep 2009

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A cultura popular diz-nos que é com os erros que se aprende. Este ‘chavão’ foi agora questionado por um conjunto de neurocientistas MIT’s Picower Institute for Learning and Memory que desenvolveram um modelo animal que põe por terra este lema que nos ajuda a todos (sniff…) nas horas mais difíceis.

Aprender - Modelo Experimental

O modelo é razoavelmente simples. Temos macacos e monitores. Os macacos foram treinados a desviar o olhar de acordo com a imagem (para a esquerda ou para a direita), sendo que apenas um dos lados conduzia a uma recompensa.

A monitorização em tempo real de células cerebrais a nível do cortéx pré-frontal (planeamento de acções) e núcleos basais (motricidade) revelou que quando os macacos desviavam o olhar para o lado correcto, obtendo portanto uma recompensa, a resposta destas células intensificava-se. Tal aumentava a taxa de sucesso do símio nas tarefas seguintes. Por outro lado, ao cometer um erro, não se verificou qualquer incremento na performance nas tarefas subsequentes.

(…) we report that single neurons in both areas show sustained, persistent outcome-related responses. Moreover, single behavioral outcomes influence future neural activity and behavior: behavioral responses are more often correct and single neurons more accurately discriminate between the possible responses when the previous response was correct.

Este é um processo genericamente designado por facilitação sináptica (maior ‘força’ de ligação entre dois neurónios). É uma maneira do nosso cérebro se adaptar ao meio ambiente, aprender com a experiência, apenas não com os erros ;)

via ScienceDaily

P.S – for what it’s worth, este artigo foi publicado na Neuron, uma revista de alto impacto da área, e, mais do que destruir a vossa auto-estima, contribuiu para um melhor conhecimento dos processos fisiológicos que regem a aprendizagem.

T9, pré-adolescentes e uma primeira achega à neuroplasticidade

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 19 Aug 2009

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Predictive text messaging changes the way children’s brains work and makes them more likely to make mistakes generally, a study has found.

Scientists say the system, which involves pressing one key per letter before the phone works out what word the user wants to type, trains young people to be fast but inaccurate.

They claim this makes them prone to impulsive and thoughtless behaviour in everyday life.

Gosto de pensar que sou ‘cool’ por escrever mensagens escritas à maneira antiga, sem a chamada ‘escrita inteligente’. Sempre achei que o sistema tira alguma liberdade; se por um lado diminuiu a densidade de abreviaturas, de “k”s, etc, não o fez à custa dum esforço activo dos utilizadores; simplesmente o sistema assim o obriga para dele fazer uso.

Feito o “à parte”, vamos à notícia e a uma pequena reflexão crítica sobre esta. Não é a primeira vez que ouvimos dizer que a tecnologia, nas suas diferentes variantes embrutece o utilizador. São as calculadoras, os Magalhães, etc.

Se há fundamento? Há. Pessoalmente, não vejo maneira de suavizar a realidade. O nosso desenvolvimento pessoal faz-se à custa de desafios; tudo o que torna a nossa vida mais fácil, não nos faz mais espertos. Sou só eu que me lembro que o Son Goku (e os restantes elementos daquela grande raça que são os Saiyans) ficava sempre mais forte depois duma valente carga de porrada? Se até os desenhos animados percebem isto…

O nosso cérebro desenvolve-se em resposta ao ambiente. E não é também segredo que quanto mais jovem se é mais fácil é aprender. A base neurológica da aprendizagem é diversa, ainda mal compreendida (por mim e penso que pela ciência em geral) mas resume-se à proliferação neuronal (principalmente nas crianças) e à alterações sinápticas – a sinapse é a conexão entre dois neurónios; se pensarmos analogamente a um circuito eléctrico, uma sinapse é facilitada quando se diminui a resistência à passagem de corrente, inibida na situação inversa. O equilíbrio entre facilitação e inibição sináptica pode estar na base de fenómenos de neuroplasticidade, a capacidade de o cérebro se adaptar, anatomica- e funcionalmente, a um ambiente solicitador.

A neuroplasticidade é uma coisa fantástica, que irei aprofundar noutros posts. Este fenómeno é particularmente agressivo em casos de amputações, cegueira, etc; tudo situações onde ocorre um shift brutal nas nossas necessidades de interacção com o ambiente; o estudo da reorganização cerebral, anatómica e funcional, alicia a comunidade científica; diz-se por aí que os cegos desenvolvem todos os outros sentidos – não será certamente por acaso. Também os acidentados com défices da motricidade – a fisioterapia é essencialmente o tal estímulo ambiental para a neuroplasticidade de modo a recuperar essa capacidade, criar e facilitar novas ligações, já que as anteriores ficaram irreversivelmente lesadas.

No caso específico do T9 o que temos é, num primeiro nível, um desprezar da ortografia num sentido estrito. Aquela ‘merda’ até mete os acentos, as cedilhas. Num segundo nível, é reforçada a pulsão do imediato: quero, posso e mando. Esta é a tese da notícia. Acontece que um corrector ortográfico com tendência para o facilitismo usado e abusado por jovens pré-púberes, altamente voláteis a fenómenos de neuroplasticidade, incorre naturalmente numa menor estimulação para uma ortografia correcta. Escrever bem (ou fazer contas de cabeça, cf. calculadoras) é um acto mecânico – o treino facilita a sinapse (se quisermos por isto num ponto de vista simplista).

Por outro lado, para quê mecanizar aptidões que já não são tão necessárias? Isto é discutível, é certo. Nem eu concordo com o que acabei de escrever. Acho que se deve escrever bem, porra. Mas o essencial é que as crianças continuem a ser estimuladas para processos cognitivos básicos de memorização, mecanização, abstracção, raciocínio, etc. Se isso deixou de ocorrer pelo cálculo (calculadoras) ou pela escrita (correctores ortográficos), ao menos que o seja por outras vias (os jogos de computador por exemplo). Facilitamos numas coisas, temos que puxar por outras.

Ainda assim, escrever bem é importante. Sinto um arrepio na espinha quando vejo certas calinadas. Até as minhas. Isto de ter risquinhos vermelhos por baixo das palavras falaciosas, de ler menos do que devia e falar demais do MSN faz as suas mossas, até em mim que já não sou nenhuma criança.

O conselho que este vosso autor vos deixa é simples. Estamos todos a apodrecer um bocado, a tentação está à nossa volta. Mas para isso Deus inventou o Sudoku*. Ámen.

Daily Mail via Gizmodo

* – que odeio. Mas perceberam a ideia.