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um ensaio sobre testículos descaídos

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 11 Mar 2010

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Um enigma com o qual a humanidade se tem digladiado desde a Grécia Antiga até aos dias de hoje em busca duma resposta.

Porque têm os homens um testículo mais descaído?

Antes de mais, algumas estatísticas descritivas.

Presentation1 - Microsoft PowerPoint

(as % que faltam dizem respeito à minoria que os possuía nivelados)

fontes:
- Mittwoch, U. & Kirk, D. (1975). Superior growth of the right gonad in human foetuses. Nature, 257, 791-792.
- Antliff, H. R. & Shampo, D. R. (1959). Causative factors for the scrotal position of the testis. Journal of Urology, 81, 462-463.

Algumas hipóteses explicativas desta “descaída” foram propostas ao longo dos anos. Mas como diria o estripador, vamos por partes:

1ª hipótese – gravidade:

Será que o testículo mais descaído é aquele com o maior peso e volume? E portanto seria apenas a gravidade a empurrá-lo mais para baixo?

Consultem o quadro. Como podem ver, o testículo direito é em média mais robustinho que o esquerdo mas ainda assim não costuma ser o que se encontra mais descaído na população.

Veredicto: improvável.

2ª hipótese – lateralização e dominância motora:

Chang no seu artigo “Scrotal asymmetry and handedness” publicado no Journal of Anatomy em 1960, refere ter observado uma relação inversa entre o testículo descaído e a mão com que o mesmo sujeito usava para escrever.

Ou seja, normalmente as pessoas escrevem com a mão direita possuem o testículo esquerdo mais descaído, o que vai de encontro à tabela de resultados. Os canhotos, a minoria, teriam o testículo direito descaído.

Contudo, Antliff & Shampo (1959) não observaram tal relação inversa numa amostra distinta da de Chang. Ainda que hoje em dia esta hipótese não seja tida como muito provável ou sequer ter um fundamento biológico palpável, decidi fazer aquele inquérito de há uns dias.

Aqui seguem os resultados:

Output5 [Document5] - PASW Statistics Viewer

Meti os dados no PASW, eliminei as entradas de quem respondeu que não era macho ou que os tinha nivelados (não há maneira de saber se de facto estavam nivelados ou se pareciam estar e não estavam na realidade – variável parasita, minoritária e dispensável neste caso) e fiz um crosstabs cujo gráfico podem ver acima.

Conclusões a tirar… para além do facto que levei com que 250 gajos apalpassem a fruta, não parece haver a tal relação inversa que Chang descreveu. Se existisse, era de supor que a % de sujeitos com o testículo direito fosse superior à do testículo esquerdo no caso dos esquerdinos apenas. Ainda assim, estes resultados vão de encontro com a observação recorrente do testículo esquerdo ser de facto o mais descaído.

Por isso, se têm o direito mais descaído ou realmente nivelados, os meus parabéns, fazem parte duma minoria.

Veredicto: improvável.

3ª hipótese – termoregulação:

Caso não saibam, uma espermatogénese com “pés e cabeça” precisa duma temperatura ligeiramente inferior aos 37ºC do nosso corpo. Por essa mesma razão eles descem da cavidade abdominal e tornam-se penduricalhos pois caso contrário a produção dos nossos meninos estaria seriamente comprometida.

Assim, uma possível explicação, proposta por Kumar & Kumar (2008) no Journal of Medical Hypotheses seria que um testículo ao estar mais descaído, tem uma área maior exposta à temperatura ambiente, o que pode ser crucial para fins de termoregulação.

termoreg

E assim, em vez de serem duas áreas laterais expostas, são duas áreas laterais + duas metades contra-laterais.

Contudo, se assim é, ficam algumas coisas por explicar:
- Porque será que uma minoria (~10%) da população masculina possui os testículos nivelados desde a Grécia Antiga até hoje? Será que a diferença não é significativa qb para que seja alvo de selecção natural?
- Decorrente da ultima alínea e do facto de estarmos a maior parte do tempo com roupas que tendem a nivelar os testículos, porque será que há uma espermatogénese competente à mesma?
- Ver hipótese 5.

Veredicto: possível; por confirmar.

4ª hipótese – optimização de espaço:

Sem fundamento.

5ª hipótese – drenagem vascular:

Como a espermatogénese precisa de ~-2ºC que a temperatura do corpo habitual, é natural que haja um mecanismo subjacente de controlo e regulação desta temperatura. Um dos mecanismos propostos será o da troca de calor entre a artéria e veia testicular. (Harrison RG. The comparative anatomy of the blood-supply of the mammalian testis. Proc Zool Soc London 1949;119:325–44.)

Stany Lobo, em resposta ao artigo da 4º hipótese, afirmou que a veia testicular esquerda conflui na veia renal esquerda em 90º enquanto que a veia testicular direita conflui para a veia cava inferior num ângulo agudo (Moore LL, Dalley AF. Clinically oriented anatomy. 5th ed. Philadelphia: Lippincott Williams and Wilkins; 2006. p. 227–229.). Este ângulo, aliado à alta pressão na veia renal fará com que a pressão venosa no testículo esquerdo será maior, o que progressivamente irá empurrar esse mesmo testículo para baixo. (Stany Lobo, 2009).

250px-Gray1144

Bom, isto é tudo muito bonito mas continua sem explicar porque 25% da população masculina apresenta o testículo direito mais descaído nem os 10% que os tem nivelados (podem até alegar situs inversus para o primeiro caso mas nunca chegaria a tal percentagem).

Veredicto: provável; por confirmar.

Foram expostas 5 hipóteses e ainda assim não foi referida a perspectiva embriológica por exemplo mas que no geral também é refutada.

Facto é, uma teoria que responda a todas as questões à volta deste assunto ainda está por aparecer.
Entretanto, o mistério continua

inquérito – lado dominante vs testículo descaído

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 08 Mar 2010

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Ora isto já não é novo para vocês, julgo ser o 3º inquérito aparvalhado que por aqui passa.

Este é destinado especialmente aos homens.
E desta vez, tenho motivos ligeiramente mais sólidos (nem por isso) para legitimar o precioso minuto de tempo do qual vos irei privar.

Anyhow, espalhem.

arrow-down

http://spreadsheets.google.com/viewform?formkey=dFN5X2QwMUpCeVZUWXVKeFhNZEtlaHc6MA

ou

http://bit.ly/9Wm86z

2 diagnósticos caricatos

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 04 Mar 2010

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Caso #1

diag1

Ora aí está a prova que estudar demais faz mal, literalmente. Por mais estranho que pareça, o marrão em questão conseguiu arranjar uma infecção das grandes e nada agradáveis graças a uma idiossincrasia relativamente à postura de estudo:

marrao

Ao que parece, não só desenvolveu a infecção acima como também manifestou comportamentos e pensamentos delirantes. Resistindo ao diagnóstico e só aceitando tomar a medicação após consultar 14 médicos de especialidades diferentes, este estudante de medicina do Royal College será certamente um candidato ao “maior da sua aldeia”.

Caso #2

diag2

Se pensarem que alguém engoliu um símbolo da playboy que foi parar ao fígado por artes mágicas, enganaram-se. Chama-se “sinal de Mumoli” e significa a junção de duas veias hepáticas a nível da veia cava inferior. Ainda assim, gosto de pensar nisto como uma prova de existência de um todo-poderoso com sentido de ironia.

desafio: 2 diagnósticos caricatos

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 03 Mar 2010

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Para variar e para não dizerem que isto não é um blog “interactivo”, seguem-se dois contextos macabros que levaram pessoas a procurar ajuda médica. Vou apresentar uma imagem representativa de cada situação e um curto sumário da história clínica e sintomatologia; não irei, contudo, dizer-vos a causa. É para vocês pensarem e se quiserem, arriscar um diagnóstico (comentários ou mail).

Amanhã ou depois coloco a resposta.

Caso #1

diag1

* 20 anos.
* estudante (marrão).
* anteriormente saudável.
* acorda com o cotovelo vermelho, inchado, molengo e quente.
* dor crescente ao longo dos dias.

Só têm direito a isso. Já são pistas quanto baste e esforcei-me ao máximo para usar termos coloquiais.

Caso #2

diag2

* 35 anos.
* anteriormente saudável.
* falta de ar e dor abdominal.
* exame físico + radiografia ao peito + electrocardiograma + ecocardiograma = tudo normal.
* ultrassom ao fígado de acordo com o que a figura mostra acima.

É proibido googlar (especialmente por “playboy rabbit ultrasound“) ou apontar “demasiada rotatividade” como causa.

Vamos a isso. Soluções praí sexta.

the uncanny valley

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 01 Mar 2010

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Desconhecido para muita gente, inclusive para aqueles dentro do ramo, hoje irei abordar um comportamento reactivo que é, no mínimo, estranho.

Freud em 1906 publicou um artigo que rapidamente caiu em esquecimento e subvalorização na altura. Nesse artigo, ele introduzia o efeito uncannyDas Unheimliche. Simply put, é aquela sensação desconcertante inexplicável, por vezes acompanhada por calafrios, quando miram algo que vos é familiar e estranho ao mesmo tempo.

64 anos mais tarde, um Japonês chamado Masahiro Mori, um pioneiro do campo da robótica, observou que há uma resposta emocional de empatia crescente à medida que um robot cada vez mais se assemelha com um ser humano. Contudo, a dada altura, essa empatia seria substituída por uma forte aversão e repugnância, desaparecendo apenas caso o robot fosse modificado a parecer-se mais ou menos com um ser humano – daí o conceito de vale. A sensação descrita pelas pessoas inicialmente coincidiu com o conceito de Uncanny. E assim nasceu o conceito:

The Uncanny Valley

uncannyvalley

Tudo o que referi acima pode ser constatado neste gráfico: quanto maior a semelhança com o ser humano (eixo dos x), maior a familiaridade positiva (eixo dos y), até que chegamos ao vale em si. Continua a subir a similaridade e saímos do vale com uma subida exponencial.

Alguns exemplos citados como provocadores de tal sensação desconcertante:

polar_express_01Polar Express. (ler artigo)

robotActroid. (further reading)

Devo confessar que a primeira vez que olhei para estas imagens, não senti nada de especial. Contudo, lembro-me um dia destes de estar a fazer um inocente zapping na televisão e apanhar o Polar Express. Na altura eu não fazia a mínima ideia do que era esta coisa do uncanny effect mas palavra de honra que comentei com as pessoas ao lado que havia alguma coisa de errado com aquele filme.

Este vale macabro e a sua reacção aversiva continua a ser um mistério mas já foram propostas algumas explicações.
Aqui vão as principais:

1. Com base no aspecto “humanesco” intermédio que caracteriza o vale, nós inconscientemente vamos associar a uma condição grave de saúde e portanto imprópria para ser seleccionada com o fim de proliferação da espécie. Será então activado um mecanismo que invoca a sensação de repugnância de modo a nos distanciar daquela coisa sem bons genes.

2. Pode apelar ao medo inato da morte a um nível inconsciente. Ver uma coisa humana como um conjunto de partes soltas atarraxadas, não mais que uma máquina de uma maneira tão evidente pode quebrar defesas e utopias de imortalidade.

3. Parecido com o (1) mas em vez de ser um mecanismo cognitivo que visa distanciar-nos do objecto por motivos de manutenção da qualidade evolutiva, será um mais orientado para o individual, como associar a uma possível fonte de doenças e portanto que deveremos evitar.

4. Parecido com o (2) mas numa perspectiva de abalo à nossa identidade enquanto ser humano.

5. No seguimento do (4), já tomando como base as normas culturais e religiosas que defendem a unicidade do ser humano como uma forma de vida especial. Ver um robot tão perigosamente humano pode provocar um maelstrom em tais esquemas mentais, invocando a ansiedade existencial também descrita em (2) que tais normas incutidas durante o desenvolvimento tentam escudar.

E são só estas. Eu sei, parecem um bocado repetidas e não passam de meras tentativas em explicar o calafrio. Alguns autores questionam até a validade deste vale já que há relatos de se observar o uncanny em robots com baixa similaridade. Outros autores referem até que se trata de uma percepção multidimensional com pluricausalidade desde vias neurobiológicas do reconhecimento de rostos até a constructos psicossociais.

Deixo para a vossa reflexão; eu certamente vou tentar saber mais.

Já agora, o “bunraku puppet”, segundo o google, é uma coisa destas:

bunraku

Será por isto que nunca gostei do Chucky? :(

E assim começa o futuro

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 05 Dec 2009

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Até já consigo antecipar aplicações “macabras” que terminam em orgasmos.