Última revisão: 4 de Novembro de 2009
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Como já perceberam, este post está na verdade dividido em três, cada um focando assuntos diferentes mas complementares e constituintes do mesmo todo. Na primeira parte faço uma pequena introdução e abordo a questão da genuinidade vs dissimulação. Na segunda parte vou referir os sinais fisiológicos (e portanto, fortes indicadores) da ocorrência duma mentira. Na terceira parte irei falar sobre os sinais não-verbais mais comuns (e passíveis de serem controlados) incluindo micro-expressões, terminando com uma conclusão e apanhado geral.
#1:
Mentir faz parte do nosso dia-a-dia.
Robert Feldman estudou 121 casais enquanto estes conversavam e concluiu que 62% dos participantes diziam em média duas ou três mentiras a cada dez minutos. Noutro estudo, James Patterson entrevistou 2000 americanos e descobriu que 91% mentiam regularmente tanto em casa como no trabalho.
As diferenças enormes entre homens e mulheres.
Homens, perdoem-me por dizer isto mas as mulheres estão melhor equipadas a nível de hardware tanto para conseguir pregar uma mentira credível como para apanhar um mentiroso. Isto é facilmente explicado a nível evolutivo e hormonal. Pelo lado evolutivo, durante a pré-história, enquanto os homens iam caçar e desenvolviam a capacidade de concentração para uma única tarefa, estimulando a visão em túnel e faculdades espaciais (hemisfério direito), as mulheres ficavam na gruta a tomar conta dos filhos, desenvolvendo a comunicação, interacção social (hemisfério esquerdo) e a capacidade de executar várias tarefas ao mesmo tempo. Por outro lado, a própria hormona caracterizante do sexo masculino, a testosterona, tem efeito inibidor em relação ao desenvolvimento e crescimento do hemisfério esquerdo. Conclusão: As mulheres possuem áreas cerebrais especializadas e mais desenvolvidas do que homem nas aptidões sociais e de comunicação (hemisfério esquerdo); assim, detectam mais facilmente incongruências entre discurso verbal e não-verbal – o que é a base para apanhar um mentiroso. Pela mesma razão, conseguem construir uma mentira mais facilmente e recheada em pormenores, enquanto que os homens hesitam e ficam-se por mentiras simples. Curiosamente, e outra vez mostrando-se mais espertas que os homens, as mulheres quando mentem tentam (inconscientemente) estar ocupadas com alguma coisa para que minimizem os desfasamentos entre discurso e posturas/expressões, o que a poderiam levar a ser apanhada.
Incongruências entre discurso verbal e não-verbal.
Como já disse, esta é a base para apanhar um mentiroso. O discurso verbal é o indicador menos fiável da ocorrência de uma mentira pois pode ser ensaiado. Assim, é preciso procurar evidências noutros lugares: micro-expressões, movimentos involuntários, activação do SNA, etc que não estão de acordo com o que a pessoa está a dizer. Acham difícil estar a prestar atenção às duas coisas ao mesmo tempo? Então vão ficar surpreendidos quando vos disser que houve um estudo que demonstrou que a linguagem não-verbal (gestos, expressões) representam 60 a 80% do impacto da mensagem, enquanto que os sons representam 20 a 30% e só depois é que vem o resto, as palavras, representando 7 a 10%. Exemplo: O Freud, génio, tinha um paciente que cada vez que falava do casamento, apesar de referir que estava tudo impecável, tirava e voltava a colocar repetidamente a aliança no dedo. Freud reparou na incongruência entre discurso e esse gesto peculiar e foi investigar. Conclusão, as coisas não estavam assim tão bem.
Distinguir o que é genuíno do que não é
a) Sorrisos
Nos inícios do século XIX, um cientista francês chamado Guillaume Duchenne estudou os diferentes tipos de sorrisos, recorrendo a estimulação eléctrica dos músculos e por análise de cabeças decapitadas pela guilhotina. Ele chegou à conclusão que os sorrisos são controlados por dois conjuntos de músculos: zygomatic major e orbicularis oculi. Quando sorrimos, o primeiro é aquele que torna possível que mostremos os dentes por arrepanhar a carne nas bochechas. O segundo é aquele que estreita os olhos e dá aquelas rugas de lado. De que é que isto nos serve? Porque o zygomatic major é controlado conscientemente e o orbicularis oculi não, já são independentes e só aparecem num sorriso genuíno. Conclusão: um sorriso dissimulado só envolve a boca.

Esta foto ilustra bem a diferença.
Outra coisa, desconfiem se alguém vos sorrir e não mostrar os dentes. 90% dos sorrisos genuínos mostram os dentes. Isto aplica-se especialmente às mulheres que possuem um tipo de sorriso característico chamado tight-lipped smile; usam-no quando estão enfastiadas mas querem ser simpáticas, consiste em sorrir apenas com a boca, premindo um lábio contra o outro, sem mostrar os dentes. (ver imagem)
b) Ouvir
Mais subjectivo mas ainda assim digno de referir, quando as pessoas ouvem com atenção e estão genuinamente interessadas no que a outra diz, normalmente inclinam ligeiramente a cabeça para o lado, inclinam o corpo para a frente (se tiverem sentadas) e não têm nem as pernas nem os braços cruzados (se estiverem, também se pode dar o caso de estarem interessados no que a outra pessoa diz mas não receptíveis ao conteúdo). A posição do corpo e pés também é importante. Se estivermos a falar com alguém sentado e essa pessoa tiver o corpo virado para uma saída, ou alguém já de pé com um pé apontado para a porta, pode ser indicativo que essa pessoa não está assim tão interessada no que estamos a dizer e inconscientemente quer-se ir embora.

Reparem nos elementos que referi acima. Cabeça ligeiramente inclinada, posição dos braços aberta, corpo e olhar virado para a pessoa em questão. Tudo indica que está a prestar atenção à pessoa que fala; aquela expressão de avaliação ou desagrado relativamente ao conteúdo é que já não é tão positiva.
c) Comunicar
Desde o momento que os proto-humanos inventaram as primeiras armas, qualquer encontro pacífico entre duas tribos começaria pelo que se tornou o sinal universal de sinceridade e transparência. Os cães mostram o pescoço; nós mostramos as palmas das mãos, transmitindo à outra pessoa que não escondemos nada (ou nenhuma arma como seria no caso da pré-história). Assim, se alguém vos fala com sinceridade, irá provavelmente mostrar-vos as palmas das mãos à medida que vai discursando. Contudo, cuidado. Há pessoas (por exemplo vendedores ou políticos) que se podem fazer valer deste truque como dissimulação. Nesses casos, há que estar atento a gestos complementares, em busca de incongruências.
O que não é bom:
1. Mãos nos bolsos – pode ser nervosismo, insegurança ou ter algo a esconder.
2. Braços cruzados – postura defensiva, especialmente se for com os punhos cerrados, o que revela impulsos agressivos.
3. Segurar mãos atrás das costas – Relacionada com o auto-controlo. É uma postura inconsciente de combate a uma frustração, como se estivesse a impedir o próprio de tomar um comportamento impulsivo e irracional. Pode evoluir para o contacto atrás das costas se dar a nível mão-pulso e mão-braço. Quanto mais alto a mão segurar, maior a frustração. Por isso, se alguém vos estiver a dirigir a palavra com a postura abaixo, desconfiem, pois é bastante defensiva.

d) Simetria nas expressões faciais
No que toca à avaliação da genuinidade de emoções expressas facialmente, este talvez seja o factor que mereça maior destaque. Paul Ekman durante os seus estudos chegou à conclusão que aparentemente as expressões voluntárias e as espontâneas possuem circuitos neuronais distintos. Como consequência observável de tal facto, as expressões espontâneas, involuntárias e genuínas tendem a ser simétricas.


Conforto ou dissimulação
Para finalizar a #1, uma questão que muita gente coloca. Falou-se bastante em posturas defensivas como cruzar os braços ou pernas, apertar as mãos atrás das costas, entrelaçar os dedos à frente com os cotovelos apoiados na mesa, etc. Neste sentido, vão haver sempre muitas pessoas a dizer que costumam tomar posturas como as supracitadas sem se sentirem necessariamente frustradas, inseguras e à defesa. Dizem eles: “é como estou confortável”. Contudo, uma coisa não invalida a outra. O Ser Humano está inserido num meio social; quando passeamos pela baixa, desconhecemos a maior parte das pessoas; elevador num shopping, idem; cinema, idem; congresso científico, idem; hipermercado, idem. Isto tudo para dizer que faz sentido que a nossa postura default seja defensiva (oscilando de pessoa para pessoa); portanto é confortável dado que nos sentimos protegidos dessa maneira. Agora num jantar de natal por exemplo, é extremamente raro verem alguém de braços cruzados. A lição a tirar daqui é o do contexto. Na conclusão (#3) aprofundarei o papel do contexto e o perigo de cometer o erro de othello.
>> dissecando a mentira e dissimulação #2