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soluços, anfíbios e dedos no cu

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 14 Nov 2009

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Um soluço é uma contracção espamódica involuntária do diafragma. Como consequência, o diafragma desce (ver figura), o que causa um aumento do volume torácico, criação de uma pressão negativa e entrada abrupta de ar. Como o ar entra ‘à bruta’, aquando do ‘embate’, a epiglote fecha violentamente, causando o *hic*.

Soluço

Porque soluçamos? Enquanto algumas etiologias (causa) dos soluços são relativamente consensuais e bem compreendidas, existem muitas patologias às quais estão associadas soluços onde simplesmente não se compreende a razão de ser deste sintoma idiota (que em casos extremos pode levar à morte – não pelo soluço, bem entendido, mas porque muitas vezes surgem como sintoma de alguma doença grave, por exemplo do foro cardíaco, ou num pós-operatório).

Galeno, médico e filósofo grego, postula que um soluço não mais é que uma emoção violenta que nos ascende do estômago. Curioso, quase que acerta.

Aquele soluço mais corriqueiro é causado pela irritação dos nervos frénicos (que suprem o diafragma), cujo trigger corresponde muitas vezes a uma dilatação súbita do estômago (por exemplo quando comemos muito depressa) o que por via mecânica estimula os nervos frénicos. Também alimentos picantes ou mesmo o álcool/tabaco são agentes que por uma via química conseguem irritar estes nervos, despoletando os soluços. Por fim, emoções, desde o mais profundo stress à mais exuberante alegria também podem contribuir, por vias menos bem caracterizadas, a um ataque de soluços.

Soluços

Mais interessante que a exploração das etiologias que despoletam este arco reflexo que é o soluço, é perder algum tempo a pensar no arco reflexo em si. Pensa-se que, à semelhança de muitos outros mecanismos fisiológicos, o soluço corresponde à expressão de um arco reflexo motor primitivo, uma reminiscência evolutiva que nos liga aos anfíbios.

Aquando do desenvolvimento fetal, o nosso reflexo ventilatório normal está, naturalmente, ausente. Por outro lado, in utero, os fetos soluçam. Este movimento inalatório às ‘golfadas’, o soluço, é essencialmente o mesmo reflexo que condiciona a ingestão de água/ar por parte dos anfíbios. Depois do nascimento, principalmente se for prematuro, o recém-nascido pode passar até 5% do seu tempo a soluçar, o que evidencia a imaturidade pulmonar e reforça a ideia do soluço como antecedente evolutivo do reflexo ventilatório usual dos mamíferos.

Além disso, cientistas demonstraram que mecanismos semelhantes inibem soluços e padrões motores ventilatórios em humanos e anfíbios respectivamente. Neste caso, conclui-se que a elevação da concentração de CO2 inibe ambos os fenómenos. Se pensarmos um bocado é o mesmo mecanismo que está na base do acto de respirar para um saco enquanto forma de parar um ataque de soluços.

solucoevo

Mas como parar os soluços? Sinceramente, não vou perder tempo a listar as diferentes técnicas, umas mais popularuchas, outras mais científicas. Até porque a sua eficácia é um factor que está directamente decorrente da causa e da pessoa pelo que, ‘your mileage may vary‘. Não posso contudo deixar em branco uma dica para os leitores mais desesperados, quando assolados por uma crise desses malditos reflexos abichanados:

A 60-year-old man with acute pancreatitis developed persistent hiccups after insertion of a nasogastric tube. Removal of the latter did not terminate the hiccups which had also been treated with different drugs, and several manoeuvres were attempted, but with no success. Digital rectal massage was then performed resulting in abrupt cessation of the hiccups. Recurrence of the hiccups occurred several hours later, and again, they were terminated immediately with digital rectal massage. No other recurrences were observed. This is the second reported case associating cessation of intractable hiccups with digital rectal massage. We suggest that this manoeuvre should be considered in cases of intractable hiccups before proceeding with pharmacological agents.

in Termination of intractable hiccups with digital rectal massage

Já sabem, o fim dos vossos soluços pode estar à distância de um dedo.

Massagem Rectal

etiologia do mal

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 07 Nov 2009

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porque são os demónios anjos caídos e não o contrário?
porque deriva o mal do bem?

quando a neurobiologia nos mostra que não é assim?

luis_royo_fallenangel

Premissa A

As primeiras pesquisas no âmbito das neurocoisas partiram da análise e correlação entre lesões em determinadas áreas cerebrais com alterações no comportamento decorrente. Exemplo, arranca-se um naco occipital a um gajo, ele fica cego. Conclusão que se tira, essa área está relacionada com a visão.

Nesta linha de investigação, houve um senhor chamado Walter Cannon que se dedicou a dada altura da sua vida ao estudo das emoções. Ele queria saber que zona do nosso cérebro origina aquilo que chamamos de emoções básicas.

Para tal, pegou num gato e num bisturi, e divertiu-se a esgaravatar a ligação (zona a vermelho na figura abaixo) entre o córtex cerebral (zona a azul) e as áreas sub-corticais (zona a verde).

Sagittal

O que ele observou foi que o gato em questão passou a demonstrar uma intensidade muito maior de emoções, especialmente raiva, até mesmo sem provocação.

funny-pictures-urge-to-kill1

Esta e outras experiências possibilitaram chegar eventualmente à conclusão que, a origem das emoções está nas áreas sub-corticais, especialmente no hipotálamo e sistema límbico. E que o córtex, especialmente o frontal, tem um papel importante na modulação das emoções. Resumindo, o nosso Walter ao escarafunchar a ligação entre as duas áreas no gato, estava a frenar essa normalização das emoções e impulsos por parte do córtex.

De grosso modo, foi aí que percebemos que a nossa racionalidade, se é que existe, está no córtex frontal.

Premissa B

A corrente dominante em relação à evolução do sistema nervoso é que:

1. Começa com a medula espinhal, que diz respeito aos reflexos simples, característico dos primeiros vertebrados.

2. Seguidamente, vieram as áreas sub-corticais, incluindo as que referi acima, o hipotálamo e o sistema límbico, responsáveis pelas emoções básicas como a raiva. A maior parte dos mamíferos vai nesta etapa.

3. Finalmente, e só recentemente, o córtex, o primeiro na hierarquia encarregue de modular os reflexos e as emoções.

CellBrain

Juízo AB

Considerando que dentro das emoções básicas, a raiva é tida como a mais primordial e dominante, o “mal encarnado”;

E que a origem das emoções estão nas áreas sub-corticais e a “racionalidade“, aquilo que as controla e modera, no córtex;

E que o córtex só surgiu depois das áreas sub-corticais, tanto em termos evolutivos como embriológicos;

Então a conclusão só pode ser uma:
Ao contrário do que pensamos e muitas religiões pregam; o bem, o controlo, a razão derivou do mal, do descontrolo e de impulsos (alguns mais tarde rotulados como pecaminosos).

Os anjos são na verdade, demónios “ascendidos”.

dissecando a mentira e dissimulação #3

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 06 Nov 2009

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Última revisão: 4 de Novembro de 2009
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#1: -- link
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Como já perceberam, este post está na verdade dividido em três, cada um focando assuntos diferentes mas complementares e constituintes do mesmo todo. Na primeira parte faço uma pequena introdução e abordo a questão da genuinidade vs dissimulação. Na segunda parte vou referir os sinais fisiológicos (e portanto, fortes indicadores) da ocorrência duma mentira. Na terceira parte irei falar sobre os sinais não-verbais mais comuns (e passíveis de serem controlados) incluindo micro-expressões, terminando com uma conclusão e apanhado geral.

#3:

“Hear no evil, see no evil, speak no evil.”

hearseesay

Se uma criança conta uma mentira, põe a mão à frente da boca.
Se ouvimos algo que não queremos ouvir, tapamos os ouvidos.
Se vemos algo que não queremos ver, cobrimos os olhos com as mãos.

O mesmo princípio aplica-se para a mentira e dissimulação, mas os movimentos vão ficando cada vez mais disfarçados e refinados à medida que envelhecemos.

Sinais secundários de mentira e dissimulação

Regra geral, aumenta o número de movimentos que estabelecem contacto entre mão e cara bem como o número de engolidelas em seco, apesar desta última normalmente só ser possível ver nos homens visto que têm a maçã de Adão mais saliente.

a) Tapar a mão com a boca
O cérebro inconscientemente ordena à mão tapar a boca para que pare de mentir. Quem diz mão, diz dedos. Se este gesto for usado enquanto outro está a falar, pode ser porque pensam que esse outro está a esconder alguma coisa, ou então é uma indirecta (até para o próprio) para o outro se calar. Algumas pessoas tentam disfarçar com uma tossidela.

b) Coçar o nariz
Quando as tais catecolaminas são libertadas enquanto mentimos (adrenalina, lembram-se?), estas vão actuar sobre um certo tipo de tecido no nariz, causando inchaço (Também já aqui falei sobre a ligação entre sangrar do nariz e aumento da tensão arterial quando por exemplo há excitação sexual). Esta expansão do nariz é inclusivamente descrita no seio científico como efeito pinóquio, que através da activação das terminações nervosas no nariz, vai levar à tal coçadela.

c) Coçar o olho
Tentativa inconsciente, já disfarçada ainda assim, de tapar os olhos. Ou seja, impedir que quem mente olhe para a pessoa que está a ser alvo de aldrabice. Outra maneira é simplesmente desviar ou evitar o olhar.

d) Agarrar a orelha
Movimento refinado de tapar os ouvidos quando ouvimos algo que não queremos. Tal como coçar o nariz, agarrar ou brincar com a orelha é indicativo de ansiedade. No âmbito de mentir, aplica-se como se não quiséssemos que a outra pessoa ouça as calúnias que estamos a dizer. Ou em alternativa, pode significar desagrado do que outra pessoa está a dizer e portanto inconscientemente, quer que ela pare de falar.

e) Coçar o pescoço
Indecisão. Pode ser usada se estivermos a processar a abordagem ou o contexto da nossa mentira.

f) Puxar o colarinho
Aumento do batimento cardíaco, frequência respiratória e suor torna um colarinho apertado uma coisa muito desagradável.

g) Dedos na boca
Emula a segurança que alguém sente quando estava a mamar no peitinho da mãe. Se alguém não se sente confiante enquanto prega uma mentira, pode utilizar este gesto, como se precisasse de uma festinha na cabeça para lhe dizer que está a ir bem.

Resumindo, há resmas de coisas que fazemos quando mentimos. Contudo, já estes movimentos todos são passíveis de serem controlados, e é precisamente isso que as figuras públicas tentam fazer. Por isso desconfiem também da completa ausência de movimentos. Decorem esta enumeração e melhorem a vossa apresentação numa entrevista ou quando forem apresentar um trabalho.

Para se porem à prova:

Micro-expressões

basicemo

Inicialmente documentado por Haggard & Isaacs, e posteriormente aprofundado pelo Ekman, trata-se em termos simples da existência de curtas e involuntárias expressões faciais quando existe um desfasamento entre o que sentimos e o que dizemos.

Por exemplo, um gajo a falar da sogra que odeia esforça-se para manter uma poker face, mas de vez em quando será inevitável uma micro-expressão de raiva ou nojo como um sneer (fig.), tão rápido que pode ser perdido com uma piscadela de olhos.

sneer

Isto pode parecer tudo muito bonito, mas não é, nem de perto, assim tão óbvio e fiável. Até anda por aí uma série televisiva chamada Lie to Me que exagera a um ponto quase ridículo. É mais para vender do que outra coisa; até já andam a circular programas tipo o vídeo abaixo que supostamente treinam uma pessoa em detectar micro-expressões (até o próprio Ekman comercializa o seu próprio programa de treino).

erro de Othello

Sim, aquela peça de Shakespeare. Othello foi o gajo que limpou o sebo à mulher após a confrontar com uma traição imaginária. A Desdemona, sabendo a tempestade que vinha daquela confrontação, stressava por todos os lados. O Othello falhou em ter em consideração que a mulher podia estar a falar a verdade apesar de parecer que mentia devido ao stress.

A reter, o erro de Othello ocorre quando interpretam mal em tais circunstâncias; fecham-se e reduzem ao julgamento que a outra pessoa mente, quando possivelmente existem outras eventualidades que justificariam aquilo que vocês viram como sinal de mentira ou dissimulação.

Conclusão

Lembrem-se, estes gestos todos são parte de um integrado. Elementos soltos querem dizer pouco ou nada e é arriscado pegar por aí. Uma pessoa pode coçar o nariz porque está com uma inocente comichão ou alergia. Uma pessoa pode estar com a pupila dilatada porque há pouca luz no meio envolvente. Tudo tem que ser analisado como um todo e procurar desfasamentos entre discurso e posturas. Por esta mesma razão é que existem bons detectores de mentiras humanos sem nunca terem estudado isto. As incongruências são detectadas a nível inconsciente e geram feelings que algo não bate certo. Daí o melhor treino neste campo ser através da convivência social.

Bom proveito.

dissecando a mentira e dissimulação #1

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 04 Nov 2009

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Última revisão: 4 de Novembro de 2009
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Como já perceberam, este post está na verdade dividido em três, cada um focando assuntos diferentes mas complementares e constituintes do mesmo todo. Na primeira parte faço uma pequena introdução e abordo a questão da genuinidade vs dissimulação. Na segunda parte vou referir os sinais fisiológicos (e portanto, fortes indicadores) da ocorrência duma mentira. Na terceira parte irei falar sobre os sinais não-verbais mais comuns (e passíveis de serem controlados) incluindo micro-expressões, terminando com uma conclusão e apanhado geral.

#1:

Mentir faz parte do nosso dia-a-dia.
Robert Feldman estudou 121 casais enquanto estes conversavam e concluiu que 62% dos participantes diziam em média duas ou três mentiras a cada dez minutos. Noutro estudo, James Patterson entrevistou 2000 americanos e descobriu que 91% mentiam regularmente tanto em casa como no trabalho.

As diferenças enormes entre homens e mulheres.
Homens, perdoem-me por dizer isto mas as mulheres estão melhor equipadas a nível de hardware tanto para conseguir pregar uma mentira credível como para apanhar um mentiroso. Isto é facilmente explicado a nível evolutivo e hormonal. Pelo lado evolutivo, durante a pré-história, enquanto os homens iam caçar e desenvolviam a capacidade de concentração para uma única tarefa, estimulando a visão em túnel e faculdades espaciais (hemisfério direito), as mulheres ficavam na gruta a tomar conta dos filhos, desenvolvendo a comunicação, interacção social (hemisfério esquerdo) e a capacidade de executar várias tarefas ao mesmo tempo. Por outro lado, a própria hormona caracterizante do sexo masculino, a testosterona, tem efeito inibidor em relação ao desenvolvimento e crescimento do hemisfério esquerdo. Conclusão: As mulheres possuem áreas cerebrais especializadas e mais desenvolvidas do que homem nas aptidões sociais e de comunicação (hemisfério esquerdo); assim, detectam mais facilmente incongruências entre discurso verbal e não-verbal – o que é a base para apanhar um mentiroso. Pela mesma razão, conseguem construir uma mentira mais facilmente e recheada em pormenores, enquanto que os homens hesitam e ficam-se por mentiras simples. Curiosamente, e outra vez mostrando-se mais espertas que os homens, as mulheres quando mentem tentam (inconscientemente) estar ocupadas com alguma coisa para que minimizem os desfasamentos entre discurso e posturas/expressões, o que a poderiam levar a ser apanhada.

Incongruências entre discurso verbal e não-verbal.
Como já disse, esta é a base para apanhar um mentiroso. O discurso verbal é o indicador menos fiável da ocorrência de uma mentira pois pode ser ensaiado. Assim, é preciso procurar evidências noutros lugares: micro-expressões, movimentos involuntários, activação do SNA, etc que não estão de acordo com o que a pessoa está a dizer. Acham difícil estar a prestar atenção às duas coisas ao mesmo tempo? Então vão ficar surpreendidos quando vos disser que houve um estudo que demonstrou que a linguagem não-verbal (gestos, expressões) representam 60 a 80% do impacto da mensagem, enquanto que os sons representam 20 a 30% e só depois é que vem o resto, as palavras, representando 7 a 10%. Exemplo: O Freud, génio, tinha um paciente que cada vez que falava do casamento, apesar de referir que estava tudo impecável, tirava e voltava a colocar repetidamente a aliança no dedo. Freud reparou na incongruência entre discurso e esse gesto peculiar e foi investigar. Conclusão, as coisas não estavam assim tão bem.

Distinguir o que é genuíno do que não é

a) Sorrisos

Nos inícios do século XIX, um cientista francês chamado Guillaume Duchenne estudou os diferentes tipos de sorrisos, recorrendo a estimulação eléctrica dos músculos e por análise de cabeças decapitadas pela guilhotina. Ele chegou à conclusão que os sorrisos são controlados por dois conjuntos de músculos: zygomatic major e orbicularis oculi. Quando sorrimos, o primeiro é aquele que torna possível que mostremos os dentes por arrepanhar a carne nas bochechas. O segundo é aquele que estreita os olhos e dá aquelas rugas de lado. De que é que isto nos serve? Porque o zygomatic major é controlado conscientemente e o orbicularis oculi não, já são independentes e só aparecem num sorriso genuíno. Conclusão: um sorriso dissimulado só envolve a boca.

mn_faces

Esta foto ilustra bem a diferença.
Outra coisa, desconfiem se alguém vos sorrir e não mostrar os dentes. 90% dos sorrisos genuínos mostram os dentes. Isto aplica-se especialmente às mulheres que possuem um tipo de sorriso característico chamado tight-lipped smile; usam-no quando estão enfastiadas mas querem ser simpáticas, consiste em sorrir apenas com a boca, premindo um lábio contra o outro, sem mostrar os dentes. (ver imagem)

b) Ouvir

Mais subjectivo mas ainda assim digno de referir, quando as pessoas ouvem com atenção e estão genuinamente interessadas no que a outra diz, normalmente inclinam ligeiramente a cabeça para o lado, inclinam o corpo para a frente (se tiverem sentadas) e não têm nem as pernas nem os braços cruzados (se estiverem, também se pode dar o caso de estarem interessados no que a outra pessoa diz mas não receptíveis ao conteúdo). A posição do corpo e pés também é importante. Se estivermos a falar com alguém sentado e essa pessoa tiver o corpo virado para uma saída, ou alguém já de pé com um pé apontado para a porta, pode ser indicativo que essa pessoa não está assim tão interessada no que estamos a dizer e inconscientemente quer-se ir embora.

listening1

Reparem nos elementos que referi acima. Cabeça ligeiramente inclinada, posição dos braços aberta, corpo e olhar virado para a pessoa em questão. Tudo indica que está a prestar atenção à pessoa que fala; aquela expressão de avaliação ou desagrado relativamente ao conteúdo é que já não é tão positiva.

c) Comunicar

Desde o momento que os proto-humanos inventaram as primeiras armas, qualquer encontro pacífico entre duas tribos começaria pelo que se tornou o sinal universal de sinceridade e transparência. Os cães mostram o pescoço; nós mostramos as palmas das mãos, transmitindo à outra pessoa que não escondemos nada (ou nenhuma arma como seria no caso da pré-história). Assim, se alguém vos fala com sinceridade, irá provavelmente mostrar-vos as palmas das mãos à medida que vai discursando. Contudo, cuidado. Há pessoas (por exemplo vendedores ou políticos) que se podem fazer valer deste truque como dissimulação. Nesses casos, há que estar atento a gestos complementares, em busca de incongruências.

O que não é bom:
1. Mãos nos bolsos – pode ser nervosismo, insegurança ou ter algo a esconder.
2. Braços cruzados – postura defensiva, especialmente se for com os punhos cerrados, o que revela impulsos agressivos.
3. Segurar mãos atrás das costas – Relacionada com o auto-controlo. É uma postura inconsciente de combate a uma frustração, como se estivesse a impedir o próprio de tomar um comportamento impulsivo e irracional. Pode evoluir para o contacto atrás das costas se dar a nível mão-pulso e mão-braço. Quanto mais alto a mão segurar, maior a frustração. Por isso, se alguém vos estiver a dirigir a palavra com a postura abaixo, desconfiem, pois é bastante defensiva.

137-upper_arm_grip

d) Simetria nas expressões faciais

No que toca à avaliação da genuinidade de emoções expressas facialmente, este talvez seja o factor que mereça maior destaque. Paul Ekman durante os seus estudos chegou à conclusão que aparentemente as expressões voluntárias e as espontâneas possuem circuitos neuronais distintos. Como consequência observável de tal facto, as expressões espontâneas, involuntárias e genuínas tendem a ser simétricas.

contempt

sorriso2

Conforto ou dissimulação

Para finalizar a #1, uma questão que muita gente coloca. Falou-se bastante em posturas defensivas como cruzar os braços ou pernas, apertar as mãos atrás das costas, entrelaçar os dedos à frente com os cotovelos apoiados na mesa, etc. Neste sentido, vão haver sempre muitas pessoas a dizer que costumam tomar posturas como as supracitadas sem se sentirem necessariamente frustradas, inseguras e à defesa. Dizem eles: “é como estou confortável”. Contudo, uma coisa não invalida a outra. O Ser Humano está inserido num meio social; quando passeamos pela baixa, desconhecemos a maior parte das pessoas; elevador num shopping, idem; cinema, idem; congresso científico, idem; hipermercado, idem. Isto tudo para dizer que faz sentido que a nossa postura default seja defensiva (oscilando de pessoa para pessoa); portanto é confortável dado que nos sentimos protegidos dessa maneira. Agora num jantar de natal por exemplo, é extremamente raro verem alguém de braços cruzados. A lição a tirar daqui é o do contexto. Na conclusão (#3) aprofundarei o papel do contexto e o perigo de cometer o erro de othello.

>> dissecando a mentira e dissimulação #2

motion induced blindness

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 31 Oct 2009

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Em 1991, Ramachadran caracterizou um fenómeno visual que, numa tradução literal, é designado por cegueira induzida pelo movimento (Ramachandran, V. S., & Gregory, R. L. 1991. Perceptual filling in of artificially induced scotomas in human vision. Nature, 350, 699-702). Relaxem, o que vos vou mostrar não vos tornará cegos na acepção clássica da palavra.

A seguinte animação (peço aos que nos seguem por feeds a amabilidade de acederem a este post através do site para que a possam visualizar) pretende ilustrar este fenómeno. O que lhe peço, estimado leitor, é que (1) fixe o ponto central e (2) atente ao que acontece à sua percepção dos pontos amarelos circundantes.



Em princípio deverá ter notado que, eventualmente, os pontos amarelos desaparecem, ora um de cada vez, ora todos. Porquê?

O nosso sistema visual é em grande medida o produto de milhares de anos de pressão selectivas continuadas, favoráveis à nossa sobrevivência contra uma grande variedade de predadores. Em boa verdade, até podemos não ser os seres cuja visão está mais optimizada para tal. Tome-se por exemplo as águias, que não possuindo visão cromática (cegas para as cores), possuem uma superior capapacidade de discriminação de contraste – uma optimização para a caça e visão à distância.

Ao fixarmos o ponto central, a informação relevante para o nosso sistema perceptual é o movimento. O movimento está associado ao perigo. Uma mosca que esteja paradinha no canto da vossa sala em princípio passará despercebida. Só darão por ela quando começar a deambular e o seu rápido movimento despoletar um trigger de alerta no vosso sistema perceptual.

Analogamente, nesta animação, é descartada a informação estática, sendo superimposta a cinética da frame em movimento. E note-se, não é preciso grande movimento – se brincarem com a velocidade de rotação verão que esta ilusão ainda se verifica para pequenas velocidades. Se activarem a opção ‘grating on‘, verão que mais que uma cegueira, existe uma reconstrução da zona onde estava o ponto pela informação contida na periferia, daí a manutenção do padrão do fundo.

Outra ‘maneira’ de explicar este fenómeno é enquanto mecanismo de controlo de danos do sistema visual. Imaginem que, por qualquer fenómeno patológico, a vossa visão daquele ponto estava alterada e originava algum género de artefacto – uma maneira elegante de resolver esse problema é descartar essa informação e reconstruir com base na envolvência visual periférica.

Por fim, se quiserem esmiuçar uma pouco mais o vosso sistema perceptual, tentem, em vez de fixar o ponto central, fixar um dos pontos amarelos. Em princípio também o ponto central (verde) se tornará amarelo. Expliquem lá esta.


hidrosupremacia – origem do ser humano e ascensão dos golfinhos

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 02 Oct 2009

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(gauguin)-where-do-we-come-from

“Where Do We Come From? What Are We? Where Are We Going?”

Para além de ser o nome dum quadro do Paul Gauguin é também um conjunto de perguntas que a filosofia, religião, genética, antropologia, a Maya e por aí fora têm tentado responder.

Concentrando-me na primeira pergunta e apesar de não conseguir fornecer uma resposta que agrade a toda a gente (não me interpretem mal; nunca ninguém vai conseguir), posso sempre mandar mais um bitaite com algum fundamento. Assim sendo, proponho-me a responder ao primeiro repto (”Where Do We Come From?”) com a seguinte palavra:

Água.

Passo a explicar.
Ao estudar a evolução humana, colocando de lado ideias como o criacionismo, fixismo de Anaximander e a geração espontânea de Aristóteles, chegamos inevitavelmente ao Darwinismo e respectivos conceitos subjacentes, como o de ancestral comum. Ora, toda a gente já reparou que somos “parecidos” com os macaquitos. Talvez seja coincidência, talvez não. Dizem os académicos que tal semelhança é devida à partilha dum ancestral comum. Faz sentido.

Contudo; ainda assim, porque raio somos tão diferentes?

E é aqui que entra uma teoria, que a meu ver, não tem recebido crédito suficiente. Foi primeiro apresentada em 1940 e tem estado em expansão desde então, graças à sua brilhante e acérrima defensora, Elaine Morgan. Sem mais delongas, trata-se da:

Aquatic Ape Hypothesis (AAH) (cf.)

A premissa-chave desta teoria evolucionista assenta na ideia de que os proto-humanos passaram um período de tempo considerável a adaptarem-se a um meio parcialmente aquático, o que consegue justificar as nossas divergências físicas e “mentais” com os nossos “antepassados” macaquitos.

Alguns argumentos a favor:

- Comparado com o resto dos primatas, os Seres Humanos são dotados de uma forma esguia muito mais hidrodinâmica e aperfeiçoada para movimento debaixo de água.
- A menor quantidade de pêlo, desnecessária num ambiente aquático.
- Capacidade de controlar voluntariamente a respiração.
- Vestígios de pregas entre os dedos das mãos (efeito barbatana).
- Laringe descida
- Mecanismos no nariz para bloquear entrada de água.

(cf.)

E talvez o mais importante,

O nosso cérebro precisa e trabalha com nutrientes como o ácido docosahexaenóico e o iodo, os quais são absorvidos maioritariamente através da ingestão de peixinhos, lagostins, e por aí adiante. Curiosamente, estes dois meninos (DHA e Iodo, não os lagostins e peixinhos), são possivelmente os responsáveis pelo boost cerebral (cognição) que nos distingue dos demais primatas.

(cf. este, este, e mais este)

E agora a segunda parte deste post.

090914172644

Foi recentemente publicado um estudo na edição de Setembro da revista científica Trends in Cognitive Science (Volume 13, Issue 9) em que se demonstrou haver fortes razões para desconfiar que alguns animais, nomeadamente golfinhos e algumas espécies de macacos, conseguem reflectir sobre os seus estados de espírito e até regulá-los – meta-cognição consciente.

[via ScienceDaily]

Agora considerando isto e o que já foi dito anteriormente sobre o ambiente aquático ter tudo para potenciar um boost cerebral devido ao DHA, atrevem-se a somar 2 e 2?

Conclusão: Serão os golfinhos os próximos a atingir um estado de pleno self-awareness e expertise?