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2 diagnósticos caricatos

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 04 Mar 2010

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Caso #1

diag1

Ora aí está a prova que estudar demais faz mal, literalmente. Por mais estranho que pareça, o marrão em questão conseguiu arranjar uma infecção das grandes e nada agradáveis graças a uma idiossincrasia relativamente à postura de estudo:

marrao

Ao que parece, não só desenvolveu a infecção acima como também manifestou comportamentos e pensamentos delirantes. Resistindo ao diagnóstico e só aceitando tomar a medicação após consultar 14 médicos de especialidades diferentes, este estudante de medicina do Royal College será certamente um candidato ao “maior da sua aldeia”.

Caso #2

diag2

Se pensarem que alguém engoliu um símbolo da playboy que foi parar ao fígado por artes mágicas, enganaram-se. Chama-se “sinal de Mumoli” e significa a junção de duas veias hepáticas a nível da veia cava inferior. Ainda assim, gosto de pensar nisto como uma prova de existência de um todo-poderoso com sentido de ironia.

+2 síndromes fofinhos: dhat e koro

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 19 Oct 2009

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Ambos conceptualizados como síndromes culturais, o que os torna não só rebuscados mas também raríssimos. Aliás, eu até tiro o chapéu ao ICD-10 por englobar o Dhat; já o Koro nem isso.

origamipen

Dhat

De grosso modo, é um gajo ter a ideia que está a perder sémen através da urina, sofrendo um rombo na virilidade.

Parte de duas crenças hindus; a) um ditado que afirma serem precisas 40 gotas de sangue para originar 1 gota de medula e outras 40 de medula para originar 1 de sémen. b) sémen é entendido como um fluído vital, “néctar divino”, elixir da vida, amrit, etc.

Deste modo, a manifestação deste síndrome é geralmente paralelo à presença de ansiedade e nosomifalia. Ou seja, ninguém está de facto a perder sémen pela urina, apenas existe essa crença porque digamos, o Luís está num período de muito stress, que a nível psicanalítico ameaça a sua virilidade, e vive na Índia onde o sémen é sagrado. Sendo também um bocadinho hipocondríaco, o Luís vai um dia fazer xixi e vê a urina mais clarinha, associando de imediato à perda do “elixir da vida”. Depois é pescadinha de rabo na boca; o delírio ganha proporções.

Koro

Bom, este também é cultural. Mas é mais divertido.
Basicamente, é um delírio, um medo irracional de proporções épicas, uma fobia em que o pénis está a desaparecer, a ser “recolhido” para dentro do corpo, o que terminará em morte.

Dissecado, revela ser pelas mesmas linhas que o Dhat.

O engraçado é que já houve epidemias disto. Singapura, 1967.
Imaginem agora uma pandemia. Posso desde já dizer, que me preocupava mais em apanhar uma merda que me encolhesse o pénis imediatamente antes de me matar, do que uma gripe.

(Isto levanta uma boa questão também, que é a diferença entre delírio e crença. Será que uma crença, em determinados contextos, não poderá ser um delírio colectivo? Religião?)

Continuando, a nível de tratamento para estes dois síndromes, é igual e simples. Começa por psicoterapia; se não funcionar, ansiolíticos e/ou antidepressivos. É fascinante como hoje em dia, a psiquiatria tem psicofármacos para tudo. E se for preciso, inventam doenças, tipo DDHA.

síndrome de kluver-bucy

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 16 Oct 2009

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Se algum de vós apresenta uma pulsão sexual para com animais ou, quiçá, objectos inanimados (ou se dão por vocês a tirar demasiado prazer do acto de roer uma caneta) têm aqui uma hipótese de diagnóstico a considerar.

O AMOR É CEGO. OS IMPULSOS SEXUAIS TAMBÉM

A história é contada pela jornalista inglesa Rita Carter, em O Livro de Ouro da Mente – O Funcionamento e os Mistérios do Cérebro Humano. Um homem foi preso ao ser flagrado fazendo sexo com a calçada. Antes que fosse internado como pervertido, diagnosticou-se que ele sofria da síndrome de Klüver-Bucy, um distúrbio neurológico com origem na amígdala – não a que inflama quando você tem dor de garganta, mas uma estrutura no cérebro do tamanho de uma noz, que identifica situações de medo e agressividade.

in Super

Ou não; na verdade este quadro ‘divertido’ de sintomas (hiperoralidade is hardly a bad thing) é apenas descrito na literatura no seguimento de lobotomias temporais (no caso de trauma, tumor, p.ex), encefalite herpética ou um AVC (e geralmente acompanhado de outras síndromes neurológicas).


kluver

in Tratado de Fisiologia Médica – John E.Hall,  Arthur C. Guyton


Não deixa contudo ser curioso como é que uma alteração cerebral relativamente objectiva altera a nossa percepção da realidade  e comportamento num sentido tão ‘drástico’ e desviante do humano normal (e socialmente aceite).


Alguém quer arriscar um diagnóstico?

pedofilia

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 11 Aug 2009

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Um amigo perguntou-me, provavelmente já esperando que eu me perdesse em divagações, se existia alguma causa ou fundamento biológico para a pedofilia. Tal motivou alguma pesquisa da minha parte, pelo que resolvi partilhar algumas das minhas descobertas.

A mente e o corpo são indissociáveis; é evidente que qualquer psicopatologia (como é o caso da pedofilia) possui uma ligação biológica; igualmente, para a maioria destas, existe uma etiologia (causa) multifactorial, que depende do binómio genética-ambiente, a genética dá as cartas, o ambiente baralha-as.

pedo

A pedofilia é uma doença do foro psiquiátrico que se caracteriza por pulsões e comportamentos sexuais orientados para crianças pré-púberes.

Causa? Incerta. Os estudos abundam mas ainda não foi comprovada inequivocamente qualquer relação de causa-efeito. Existem sim associações, isto é, maior probabilidade de manifestação da característica A num indivíduo pedófilo do que na população em geral, sem que daí se possa extrair um nexo de casualidade evidente.

Nas minhas pesquisas, tive a oportunidade de ler um artigo que explora associações entre a pedofilia e alterações cerebrais.

Artigo

Neste artigo foi feito um estudo de comparação de grupos. De maneira a eliminar qualquer bias extra-pedofilia, foram comparados pedófilos do sexo masculino, metade patologicamente orientado para crianças do sexo masculino, metade para o sexo feminino. O grupo de controlo era constituído metade por heterossexuais e metade por homossexuais, de maneira a assegurar um paralelismo de afinidade de género. Outros parâmetros foram igualmente matched (idade, educação, etc).

Para avaliar a existência de diferenças, recorreram à ressonância magnética, uma técnica imagiológica. Para os geeks de vós, usaram um técnica chamada VBM – voxel based morphometry. Um voxel é um pixel volumétrico; em linhas gerais, agrupam os sujeitos em grupos (pedófilos e controlos), fazem um averaging, e comparam voxel a voxel em busca de diferenças.

O que encontraram?

Resultados

Output gráfico da VBM

Sem grandes detalhes anatómicos, a verdade é que foram encontradas diferenças significativas. Com detalhes, para quem os quiser ler, verificou-se diminuição do volume de matéria cinzenta no putamen, nc. accumbens, cortex orbifrontal e cerebelo no grupo de sujeitos pedófilos.

A interpretação da figura é simples, as zonas vermelhas representam diminuição de massa cinzenta, na primeira slice temos zonas vermelhas no cerebelo, no segundo corte a nível do cortex orbifrontal, etc…

Por fim, pergunto aos que lerem isto, da mesma forma como me perguntei a mim mesmo, que valor tirar desta informação? Vamos diagnosticar pedófilos? Fazer exames genéticos como quem faz uma amniocentese ou uma ecografia pré-natal? Vamos entrar numa onda à Minority Report onde a sentença antecede o crime?

Este último parágrafo foi um pouco sensacionalista, confesso; a informação contida neste artigo nunca permitiria diagnosticar pedófilos; as alterações encontradas são por exemplo comuns a portadores de doença obsessiva-compulsiva, com a qual a pedofilia tem algumas semelhanças; como disse em cima, é uma associação, não uma relação de causa efeito!

A reter deste post: se nos esforçamos o suficiente, vamos sempre encontrar alguma coisa, seja qual for a doença, um gene, uma hormona, uma proteína, um factor ambiental; vamos sempre encontrar associações, a mente marca o corpo e vice-versa. Não tenho dúvidas que, e mudando de doença, se comparassem um grupo de padres (ou indivíduos normais, não sejamos preconceituosos) e um grupo de psicopatas, as diferenças abundariam. O mesmo entre indivíduos “espertos” e “burros” e até “feios” e “bonitos”.

Não há muito tempo atrás Adolf Hitler seleccionava indivíduos no seu ideal eugénico. No futuro, o conhecimento poderá levar à tentação, e a tentação levará a…prefiro não saber.

locked-in syndrome

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 09 Aug 2009

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Ou em português de camões, síndrome do enclausuramento.

O que é?

Em primeiro lugar, é o tema deste post.
Em segundo lugar, como consequência do primeiro, obviamente, é uma condição rara em que uma pessoa está consciente e com as faculdades mentais perfeitamente preservadas. Contudo, está totalmente paralisada (por acaso não, mas não quero quebrar o efeito dramático desta pequena introdução – já explico). O nome deriva dessa impossibilidade de se mexer ou comunicar com o exterior, como se o corpo fosse uma prisão para a mente.

Bem, pormenores.
Quem estiver em hipoglicémia que se fique por aqui.

Continuando…

Causa?
(hint: não é o amor)
Já uma lesão no tronco cerebral ou um derrame nessa área poderá levar a tal.

Como se pode ver na figura, é no tronco cerebral que se faz a “ligação” entre a medula espinhal e o cérebro. Tendo em conta que todos os sinais de movimento voluntário partem do cérebro e têm de chegar à medula espinhal, se uma lesão no tronco cerebral, que faz a ligação entre os dois, impossibilitar tal passagem, torna-se óbvia a razão da tetraparalisia. A nível cognitivo não existe nenhum declínio e o estado de consciência activa é possível porque não há lesão das áreas superiores encefálicas. Este último pormenor, é o que distingue este síndrome de um estado vegetativo.

As boas notícias é que geralmente, os olhos não são afectados pela paralisia, o que poderá ser o único método que pessoas em tal condição podem comunicar com o meio envolvente. Existe também alguma investigação na aplicação de brain interfaces.

É caso para dizer, “alive and kicking blinking”.

No que respeita ao tratamento, a coisa podia estar melhor. 90% dos afectados com esta condição morre nos primeiros 4 meses; dos que sobrevivem, apenas 5% recuperam motricidade parcial. Geralmente, se a lesão é provocada por um agente específico, como um tumor, é possível submeter o doente a uma intervenção cirúrgica. Contudo, é uma operação de enorme risco porque é também no tronco cerebral que há a regulação dos movimentos respiratórios, do batimento cardíaco, etc. A mais pequena ventania nesta área e acabou-se.

Esta síndrome, apesar de caricata, não é assim tão desconhecida. Para finalizar, dois exemplos nos media onde há referência aqui ao locked-in syndrome.

- Filme: Escafandro e a borboletaThe true story of Elle editor Jean-Dominique Bauby who suffers a stroke and has to live with an almost totally paralyzed body; only his left eye isn’t paralyzed.
- Série: House S05E19Gregory House is injured in a motorcycle accident in Middletown, NY and finds himself in bed next to a patient suffering from locked in syndrome after a bicycling accident. His attending doctor diagnoses brain death, and suggests transplanting his heart into another patient. House notices the patient following the doctors with his eyes, and is immediately interested in taking up his case.