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the uncanny valley

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 01 Mar 2010

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Desconhecido para muita gente, inclusive para aqueles dentro do ramo, hoje irei abordar um comportamento reactivo que é, no mínimo, estranho.

Freud em 1906 publicou um artigo que rapidamente caiu em esquecimento e subvalorização na altura. Nesse artigo, ele introduzia o efeito uncannyDas Unheimliche. Simply put, é aquela sensação desconcertante inexplicável, por vezes acompanhada por calafrios, quando miram algo que vos é familiar e estranho ao mesmo tempo.

64 anos mais tarde, um Japonês chamado Masahiro Mori, um pioneiro do campo da robótica, observou que há uma resposta emocional de empatia crescente à medida que um robot cada vez mais se assemelha com um ser humano. Contudo, a dada altura, essa empatia seria substituída por uma forte aversão e repugnância, desaparecendo apenas caso o robot fosse modificado a parecer-se mais ou menos com um ser humano – daí o conceito de vale. A sensação descrita pelas pessoas inicialmente coincidiu com o conceito de Uncanny. E assim nasceu o conceito:

The Uncanny Valley

uncannyvalley

Tudo o que referi acima pode ser constatado neste gráfico: quanto maior a semelhança com o ser humano (eixo dos x), maior a familiaridade positiva (eixo dos y), até que chegamos ao vale em si. Continua a subir a similaridade e saímos do vale com uma subida exponencial.

Alguns exemplos citados como provocadores de tal sensação desconcertante:

polar_express_01Polar Express. (ler artigo)

robotActroid. (further reading)

Devo confessar que a primeira vez que olhei para estas imagens, não senti nada de especial. Contudo, lembro-me um dia destes de estar a fazer um inocente zapping na televisão e apanhar o Polar Express. Na altura eu não fazia a mínima ideia do que era esta coisa do uncanny effect mas palavra de honra que comentei com as pessoas ao lado que havia alguma coisa de errado com aquele filme.

Este vale macabro e a sua reacção aversiva continua a ser um mistério mas já foram propostas algumas explicações.
Aqui vão as principais:

1. Com base no aspecto “humanesco” intermédio que caracteriza o vale, nós inconscientemente vamos associar a uma condição grave de saúde e portanto imprópria para ser seleccionada com o fim de proliferação da espécie. Será então activado um mecanismo que invoca a sensação de repugnância de modo a nos distanciar daquela coisa sem bons genes.

2. Pode apelar ao medo inato da morte a um nível inconsciente. Ver uma coisa humana como um conjunto de partes soltas atarraxadas, não mais que uma máquina de uma maneira tão evidente pode quebrar defesas e utopias de imortalidade.

3. Parecido com o (1) mas em vez de ser um mecanismo cognitivo que visa distanciar-nos do objecto por motivos de manutenção da qualidade evolutiva, será um mais orientado para o individual, como associar a uma possível fonte de doenças e portanto que deveremos evitar.

4. Parecido com o (2) mas numa perspectiva de abalo à nossa identidade enquanto ser humano.

5. No seguimento do (4), já tomando como base as normas culturais e religiosas que defendem a unicidade do ser humano como uma forma de vida especial. Ver um robot tão perigosamente humano pode provocar um maelstrom em tais esquemas mentais, invocando a ansiedade existencial também descrita em (2) que tais normas incutidas durante o desenvolvimento tentam escudar.

E são só estas. Eu sei, parecem um bocado repetidas e não passam de meras tentativas em explicar o calafrio. Alguns autores questionam até a validade deste vale já que há relatos de se observar o uncanny em robots com baixa similaridade. Outros autores referem até que se trata de uma percepção multidimensional com pluricausalidade desde vias neurobiológicas do reconhecimento de rostos até a constructos psicossociais.

Deixo para a vossa reflexão; eu certamente vou tentar saber mais.

Já agora, o “bunraku puppet”, segundo o google, é uma coisa destas:

bunraku

Será por isto que nunca gostei do Chucky? :(

a sobrevalorização da “consciência”

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 01 Nov 2009

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Ora, sem me alongar muito hoje, um post rápido.

exórdio:
É consensual (Arnold, Gasson, Lazarus, Stein, Trabasso, Liwag, Zajonc, Oatley, Keltner, Jenkins) que para gerar uma emoção, passamos por um processo de avaliação, a qual se divide em duas etapas: a primária, que ocorre a um nível inconsciente e automático, gerando respostas reflexas de aproximação ou evitamento; e a secundária, onde já entra o cortex orbitofrontal, ou seja, a razão e a planificação per se.

questão-problema:
Será que esta avaliação primária, inconsciente, contribui para a experiência emocional e afecta o nosso comportamento?

Yup.
Numa experiência realizada por Ulf Dimberg e Arne Ohman em 1996, estes investigadores mostraram fotos de cobras a pessoas que possuíam fobia a esse animal de recorte fálico. Contudo, as fotos eram apenas apresentadas durante um tempo subliminar à tomada de consciência do objecto de visualização. Ou seja, as pessoas sabiam que estavam a ver fotos, mas era tão rápido que nem sabiam o que era. Os resultados são simples, apesar de não verem a cobra, as pessoas apresentaram respostas fisiológicas de verdadeiros fóbicos, tal como começarem a suar que nem porcos no dia da matança.

posfácio:
A consciência é sobrevalorizada. Processamos muita coisa, quiçá a maior parte do nosso input sensorial, sem termos noção disso; e algumas vezes, tais “processamentos inconscientes” podem alterar radicalmente o nosso comportamento, o que por acaso é a premissa-chave do conflito emocional psicanalítico – Freud tinha razão.

E com isto, acabou o intervalo. Voltar ao filme, até loguinho.

motion induced blindness

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 31 Oct 2009

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Em 1991, Ramachadran caracterizou um fenómeno visual que, numa tradução literal, é designado por cegueira induzida pelo movimento (Ramachandran, V. S., & Gregory, R. L. 1991. Perceptual filling in of artificially induced scotomas in human vision. Nature, 350, 699-702). Relaxem, o que vos vou mostrar não vos tornará cegos na acepção clássica da palavra.

A seguinte animação (peço aos que nos seguem por feeds a amabilidade de acederem a este post através do site para que a possam visualizar) pretende ilustrar este fenómeno. O que lhe peço, estimado leitor, é que (1) fixe o ponto central e (2) atente ao que acontece à sua percepção dos pontos amarelos circundantes.



Em princípio deverá ter notado que, eventualmente, os pontos amarelos desaparecem, ora um de cada vez, ora todos. Porquê?

O nosso sistema visual é em grande medida o produto de milhares de anos de pressão selectivas continuadas, favoráveis à nossa sobrevivência contra uma grande variedade de predadores. Em boa verdade, até podemos não ser os seres cuja visão está mais optimizada para tal. Tome-se por exemplo as águias, que não possuindo visão cromática (cegas para as cores), possuem uma superior capapacidade de discriminação de contraste – uma optimização para a caça e visão à distância.

Ao fixarmos o ponto central, a informação relevante para o nosso sistema perceptual é o movimento. O movimento está associado ao perigo. Uma mosca que esteja paradinha no canto da vossa sala em princípio passará despercebida. Só darão por ela quando começar a deambular e o seu rápido movimento despoletar um trigger de alerta no vosso sistema perceptual.

Analogamente, nesta animação, é descartada a informação estática, sendo superimposta a cinética da frame em movimento. E note-se, não é preciso grande movimento – se brincarem com a velocidade de rotação verão que esta ilusão ainda se verifica para pequenas velocidades. Se activarem a opção ‘grating on‘, verão que mais que uma cegueira, existe uma reconstrução da zona onde estava o ponto pela informação contida na periferia, daí a manutenção do padrão do fundo.

Outra ‘maneira’ de explicar este fenómeno é enquanto mecanismo de controlo de danos do sistema visual. Imaginem que, por qualquer fenómeno patológico, a vossa visão daquele ponto estava alterada e originava algum género de artefacto – uma maneira elegante de resolver esse problema é descartar essa informação e reconstruir com base na envolvência visual periférica.

Por fim, se quiserem esmiuçar uma pouco mais o vosso sistema perceptual, tentem, em vez de fixar o ponto central, fixar um dos pontos amarelos. Em princípio também o ponto central (verde) se tornará amarelo. Expliquem lá esta.


para que lado dança a senhora?

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 12 Sep 2009

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Ilusão Óptica

O local onde encontrei esta imagem (via Switched) alega que este é um teste rápido para verificarem qual o lado dominante do vosso cérebro. Basicamente, se virem a senhora a rodar no sentido dos ponteiros do relógio, o vosso lado dominante é o direito (associado à criatividade e capacidade espacial); se a virem rodar no sentido inverso, o vosso lado dominante é o esquerdo (capacidade lógica e linguística)

Pessoalmente, até porque facilmente qualquer pessoa a vê rodar para os dois lados (tentem focar uma sombra, rodar o monitor, semicerrar os olhos e piscar, etc), questiono a fiabilidade da ilusão enquanto teste da dominância hemisférica. Mais que tudo, é uma ilusão óptica causada por uma pista perceptual ambígua, ainda que, num primeiro impacto, a dominância hemisférica poderá ajudar a determinar o lado de rotação default, quiçá.

Passo a explicar: primeiro, a imagem é bidimensional (no shit sherlock), pelo que a ilusão tridimensional é uma construção cerebral auxiliada pelas sombras na figura e pelo movimento da silhueta, que nos sendo familiar, pressupõe uma deslocação tridimensional. O cérebro, recolhendo as ‘pistas’ tenta inferir o lado correcto do movimento, mas na verdade a animação fornece alguma ambiguidade no momento em que os braços e pernas cruzam de lado o que dá largas, literalmente, à nossa imaginação. Por outro lado, basta uma pequena modificação no fundo da imagem de modo a fornecer uma orientação às sombras, para, à partida, eliminar qualquer ambiguidade (clockwise, counterclockwise)

P.S – dizem que as mulheres tendencialmente ao ver a imagem pela primeira vez referem uma rotação counter-clockwise ao passo que os homens normalmente vêem uma rotação clockwise. Façam os vossos próprios testes e se quiserem deixem os vossos resultados e opiniões nos comentários ;)

o ponto cego

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 07 Aug 2009

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Sabiam que alucinam quando fecham um olho?

Uma das ilusões ópticas mais comuns prende-se com a identificação do ponto cego fisiológico (blind spot) existente em cada um dos nossos olhos.

A ilusão é extremamente simples, facilmente replicável numa qualquer folha de papel. Ora experimentem:

p1

Fechem o olho direito, fixem a cruz no centro do campo de visão e aproximem/afastem a cabeça do monitor de forma gradual (têm que estar bastante perto); eventualmente, a bola deve desaparecer. Parabéns! Encontraram o ponto cego do seu olho esquerdo.

Vamos perder uns segundos para tentar perceber o que aconteceu. A capacidade de visão inicia-se, em termos anatómicos, nos meios ópticos do globo ocular, que servem de porta de entrada, concentração e orientação do feixe luminoso, levando a que um fluxo de fotões seja captada pela porção sensitiva do olho, a retina. A estimulação desta camada sensitiva leva portanto à transdução dum sinal luminoso para um sinal nervoso (que ocorre nas células fotorreceptoras – cones e bastonetes), veiculado pelo nervo óptico até ao cortex occipital (na parte de trás da cabeça).

Ora bem, a retina é uma camada de células; são os seus prolongamentos (a nível das células ganglionares) que vão formar o nervo óptico. Este abandona a cavidade ocular pelo disco ou papila óptica (Optic disc na figura); neste ponto de emergência do nervo, a retina está desprovida de fotorreceptores; sem fotorreceptores não existente portanto estimulação daquela zona do nosso campo visual, constituindo um escotoma natural, o ponto cego.

Agora que já percebemos porque razão o ponto cego existe, interessa entender ao que é que corresponde ao certo ser cego num ponto. Ao realizar aquela ilusão, quando o ponto desaparece, pronto, desaparece. Vemos branco. Mas é isso que é ser cego? Mais uma ilusão:

p2

Uma vez mais, fechem o olho direito, fixem a cruz no centro do campo de visão, aproximem e afastem gradualmente a cabeça, analogamente à ilusão anterior. O que vêem?

Para os que pudessem ainda ter dúvidas, ser cego não é ver branco. Se realizaram a ilusão correctamente, viram uma linha contínua na localização do seu ponto cego. O cérebro pregou-vos uma partida. A linha não estava lá.

Neste caso, não havendo informação visual para a zona do ponto cego, o cérebro pega na região envolvente e “preenche” o ponto cego. O cérebro adora fazer isso e, geralmente, dá-nos a percepção correcta da realidade, baseado numa série de conhecimentos cognitivos a priori. Ao visualizar uma linha contínua, o cérebro presume que a continuidade se mantém em toda a sua extensão, criando a ilusão.

Contudo, no dia-a-dia, o ponto cego não é preocupante. O corpo humano é, felizmente, abundante em órgãos pares. No caso do olho, a existência dum outro tem uma importância funcional incrível; não é apenas mais um, é sinérgico. O campo visual de um olho sobrepõe-se ao do olho contralateral na zona correspondente ao ponto cego; a visão binocular permite que, ao invés duma mera reconstrução cerebral com base na envolvência, seja usada a informação do outro olho para aquele ponto, levando a sua representação fiável. Não é por acaso que qualquer ilusão do género requer que feche um dos olhos.

Mas não fiquem tristes, a visão está cheia de mentiras, e ainda bem. Ver é uma construção. O olho é um órgão fenomenal, não haja disso dúvida, nenhuma câmara lhe faz sombra. Mas não passa duma ‘ferramenta’. O processamento visual está todo nas nossas cabeças. É algo que continuaremos a explorar nos próximos posts.