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a sobrevalorização da “consciência”

Publicado por MAS | Colocado em catarse | Publicado em 01 Nov 2009

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Ora, sem me alongar muito hoje, um post rápido.

exórdio:
É consensual (Arnold, Gasson, Lazarus, Stein, Trabasso, Liwag, Zajonc, Oatley, Keltner, Jenkins) que para gerar uma emoção, passamos por um processo de avaliação, a qual se divide em duas etapas: a primária, que ocorre a um nível inconsciente e automático, gerando respostas reflexas de aproximação ou evitamento; e a secundária, onde já entra o cortex orbitofrontal, ou seja, a razão e a planificação per se.

questão-problema:
Será que esta avaliação primária, inconsciente, contribui para a experiência emocional e afecta o nosso comportamento?

Yup.
Numa experiência realizada por Ulf Dimberg e Arne Ohman em 1996, estes investigadores mostraram fotos de cobras a pessoas que possuíam fobia a esse animal de recorte fálico. Contudo, as fotos eram apenas apresentadas durante um tempo subliminar à tomada de consciência do objecto de visualização. Ou seja, as pessoas sabiam que estavam a ver fotos, mas era tão rápido que nem sabiam o que era. Os resultados são simples, apesar de não verem a cobra, as pessoas apresentaram respostas fisiológicas de verdadeiros fóbicos, tal como começarem a suar que nem porcos no dia da matança.

posfácio:
A consciência é sobrevalorizada. Processamos muita coisa, quiçá a maior parte do nosso input sensorial, sem termos noção disso; e algumas vezes, tais “processamentos inconscientes” podem alterar radicalmente o nosso comportamento, o que por acaso é a premissa-chave do conflito emocional psicanalítico – Freud tinha razão.

E com isto, acabou o intervalo. Voltar ao filme, até loguinho.

motion induced blindness

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 31 Oct 2009

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Em 1991, Ramachadran caracterizou um fenómeno visual que, numa tradução literal, é designado por cegueira induzida pelo movimento (Ramachandran, V. S., & Gregory, R. L. 1991. Perceptual filling in of artificially induced scotomas in human vision. Nature, 350, 699-702). Relaxem, o que vos vou mostrar não vos tornará cegos na acepção clássica da palavra.

A seguinte animação (peço aos que nos seguem por feeds a amabilidade de acederem a este post através do site para que a possam visualizar) pretende ilustrar este fenómeno. O que lhe peço, estimado leitor, é que (1) fixe o ponto central e (2) atente ao que acontece à sua percepção dos pontos amarelos circundantes.



Em princípio deverá ter notado que, eventualmente, os pontos amarelos desaparecem, ora um de cada vez, ora todos. Porquê?

O nosso sistema visual é em grande medida o produto de milhares de anos de pressão selectivas continuadas, favoráveis à nossa sobrevivência contra uma grande variedade de predadores. Em boa verdade, até podemos não ser os seres cuja visão está mais optimizada para tal. Tome-se por exemplo as águias, que não possuindo visão cromática (cegas para as cores), possuem uma superior capapacidade de discriminação de contraste – uma optimização para a caça e visão à distância.

Ao fixarmos o ponto central, a informação relevante para o nosso sistema perceptual é o movimento. O movimento está associado ao perigo. Uma mosca que esteja paradinha no canto da vossa sala em princípio passará despercebida. Só darão por ela quando começar a deambular e o seu rápido movimento despoletar um trigger de alerta no vosso sistema perceptual.

Analogamente, nesta animação, é descartada a informação estática, sendo superimposta a cinética da frame em movimento. E note-se, não é preciso grande movimento – se brincarem com a velocidade de rotação verão que esta ilusão ainda se verifica para pequenas velocidades. Se activarem a opção ‘grating on‘, verão que mais que uma cegueira, existe uma reconstrução da zona onde estava o ponto pela informação contida na periferia, daí a manutenção do padrão do fundo.

Outra ‘maneira’ de explicar este fenómeno é enquanto mecanismo de controlo de danos do sistema visual. Imaginem que, por qualquer fenómeno patológico, a vossa visão daquele ponto estava alterada e originava algum género de artefacto – uma maneira elegante de resolver esse problema é descartar essa informação e reconstruir com base na envolvência visual periférica.

Por fim, se quiserem esmiuçar uma pouco mais o vosso sistema perceptual, tentem, em vez de fixar o ponto central, fixar um dos pontos amarelos. Em princípio também o ponto central (verde) se tornará amarelo. Expliquem lá esta.


ver em 3D (parte 2)

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 15 Sep 2009

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Num post anterior vimos qual era o mecanismo da visão de profundidade, tridimensional com base no facto de termos dois olhos, uma propriedade designada de estereopsia.

Na altura expliquei que tal capacidade apenas era possível para objectos que distem menos de 30 metros do observador; para distâncias superiores existem um conjunto de “pistas” que o nosso cérebro usa para inferir a posição dos objectos no espaço – pistas monoculares (não dependentes portanto da cooperação dos dois olhos).

1tamanho familiar – o conhecimento do tamanho normal dum objecto permite calcular a sua distância; além disso, perante dois objectos similares, aquele que nos aparenta ser mais pequeno presume-se mais distante

2perspectiva linear – linhas paralelas, como as dum caminho de ferro, parecem convergir com o aumento distância

Perspectiva e tamanho familiar

Vejamos então um par de imagens que sintetizam na perfeição estas duas propriedades. As linhas de fuga do corredor dão-lhe, efectivamente, profundidade através da perspectiva linear (2). Por outro lado, invocando o tamanho familiar (1), presume-se, na primeira figura (e repare que sendo uma figura a 2D a profundidade é uma construção cerebral), o tamanho similar das duas mulheres.

A segunda imagem, artificial, desloca a mulher para o plano da frente, não lhe alterando o tamanho, o que corresponde a uma violação no nosso sistema perceptual (algo está errado), dado que, sendo ’seres similares’ (conhecimento a priori) deviam ter a mesma altura

Continuando…

3oclusão – se um objecto cobre outro, presume-se que está à frente (óbvio, eu sei)

4distribuição de sombras e padrão de iluminação – a interacção dum objecto com o meio produz uma sombra ou um padrão de iluminação que nos ajuda a calcular a sua posição/orientação; na pintura, o domínio de tal arte é designado de chiaroscuro

Esfera

É o jogo de luzes/sombras nesta representação bidimensional duma esfera que, lá está, me permite dizer que isto é uma representação bidimensional duma esfera.

Last, but not least…

5 - paralaxe – um nome complicado para algo simples; perante uma deslocação lateral do campo de visão, os objectos mais distantes movimentam-se mais lentamente do que aqueles próximos do observador

Uma vez que pode ser um conceito difícil de digerir, fica uma animação que explica não só o conceito de paralaxe (5) como também o de oclusão (3).

via Flash Revelations

E é tudo caríssimos leitores; espero que com estes dois ensaios tenham ficado a perceber um pouco mais sobre como se processa a visão espacial! Qualquer dúvida, estou à distância dum comentário ;)

ver em 3D (parte I) – disparidade binocular

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 22 Aug 2009

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Dou por mim muitas vezes a pensar no esforço imparável que a ciência e a técnica empregam no sentido de simular o olho humano – a alta definição, os televisores enormes, o DYNAMIC CONTRAST ou o TRUE MOTION 100Hz, entre outros. O seu sucesso é questionável, nenhum rivaliza com a experiência visual ‘ao natural’. Uma das razões está no facto que nós temos percepção da profundidade dum objecto enquanto que o nosso monitor ainda não o faz de forma satisfatória promete passar a fazê-lo. A pergunta e tema deste post é, portanto, como o conseguimos?


Uma das coisas que, se fosse religioso, agradeceria a Deus por, era ter alguns órgãos aos pares. Não só pela simetria (uma característica que o nosso sistema perceptual associa a perfeição, por exemplo, em faces) mas porque dão jeito. Os dois olhos, mais que dois pulmões ou dois rins, não são mais um, são sinérgicos. O input sensorial dos dois olhos é fundido a nível cerebral de forma transparente, para criar uma experiência espacial envolvente, a estereopsia.

O conceito é simples. Os dois olhos estão em locais diferentes, uma disparidade horizontal de cerca de 6 cm (distância interpupilar). Fixando um ponto central, equidistante dos dois olhos, os objectos na envolvência projectam uma imagem (ligeiramente) diferente em cada retina (o mesmo objecto estimula uma porção diferente da retina portanto, a parte sensorial do olho), a chamada disparidade binocular. Um esquema:

Com base na disparidade binocular, o cérebro faz a sua ‘magia’: dispõe a sensação visual (que na retina é totalmente bidimensional) no espaço usando a disparidade binocular como referência para a posição dos objectos e sua orientação, criando a experiência envolvente que é a visão de profundidade.

Um analogia possível seria a um sistema GPS, onde a disparidade temporal de um ponto em relação aos satélites (a distância é calculada com base na diferença entre o timestamp do satélite e o momento em que foi recebido no nosso receptor) permite ‘quadrangular’ a sua posição. Se os olhos forem os satélites, bem, acho que estão a ver onde quero chegar.

Percebendo isto, é muito fácil entender ao que recorre a indústria para emular esta experiência (existem outras abordagens claro). Numa projecção feita para 3D, sem os belos dos óculos acima representados o que vemos são duas imagens iguais sobrepostas e ligeiramente desalinhadas, um ‘ver desfocado’ em linguagem popular. Os óculos, por sua vez, são dotados por filtros de luz polarizada, antagónicos em cada uma das lentes. Uma vez postos, cada olho só vê uma das imagens; como as imagens não estão no mesmo sítio, cria-se uma disparidade binocular, simulando-se a estereopsia. Simples, como se pode ver neste anáglifo tridimensional.

Por outro lado, é importante realçar que a percepção espacial não acaba na visão binocular. Na verdade, a disparidade binocular enquanto pista perceptual só é significativa para distâncias inferiores a 30 e poucos metros.

Para distâncias superiores, as imagens projectadas colocam-se em posições praticamente iguais nas duas retinas. Assim sendo, recorremos às chamadas pistas monoculares, a abordar num próximo post.

o ponto cego

Publicado por MTR | Colocado em catarse | Publicado em 07 Aug 2009

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Sabiam que alucinam quando fecham um olho?

Uma das ilusões ópticas mais comuns prende-se com a identificação do ponto cego fisiológico (blind spot) existente em cada um dos nossos olhos.

A ilusão é extremamente simples, facilmente replicável numa qualquer folha de papel. Ora experimentem:

p1

Fechem o olho direito, fixem a cruz no centro do campo de visão e aproximem/afastem a cabeça do monitor de forma gradual (têm que estar bastante perto); eventualmente, a bola deve desaparecer. Parabéns! Encontraram o ponto cego do seu olho esquerdo.

Vamos perder uns segundos para tentar perceber o que aconteceu. A capacidade de visão inicia-se, em termos anatómicos, nos meios ópticos do globo ocular, que servem de porta de entrada, concentração e orientação do feixe luminoso, levando a que um fluxo de fotões seja captada pela porção sensitiva do olho, a retina. A estimulação desta camada sensitiva leva portanto à transdução dum sinal luminoso para um sinal nervoso (que ocorre nas células fotorreceptoras – cones e bastonetes), veiculado pelo nervo óptico até ao cortex occipital (na parte de trás da cabeça).

Ora bem, a retina é uma camada de células; são os seus prolongamentos (a nível das células ganglionares) que vão formar o nervo óptico. Este abandona a cavidade ocular pelo disco ou papila óptica (Optic disc na figura); neste ponto de emergência do nervo, a retina está desprovida de fotorreceptores; sem fotorreceptores não existente portanto estimulação daquela zona do nosso campo visual, constituindo um escotoma natural, o ponto cego.

Agora que já percebemos porque razão o ponto cego existe, interessa entender ao que é que corresponde ao certo ser cego num ponto. Ao realizar aquela ilusão, quando o ponto desaparece, pronto, desaparece. Vemos branco. Mas é isso que é ser cego? Mais uma ilusão:

p2

Uma vez mais, fechem o olho direito, fixem a cruz no centro do campo de visão, aproximem e afastem gradualmente a cabeça, analogamente à ilusão anterior. O que vêem?

Para os que pudessem ainda ter dúvidas, ser cego não é ver branco. Se realizaram a ilusão correctamente, viram uma linha contínua na localização do seu ponto cego. O cérebro pregou-vos uma partida. A linha não estava lá.

Neste caso, não havendo informação visual para a zona do ponto cego, o cérebro pega na região envolvente e “preenche” o ponto cego. O cérebro adora fazer isso e, geralmente, dá-nos a percepção correcta da realidade, baseado numa série de conhecimentos cognitivos a priori. Ao visualizar uma linha contínua, o cérebro presume que a continuidade se mantém em toda a sua extensão, criando a ilusão.

Contudo, no dia-a-dia, o ponto cego não é preocupante. O corpo humano é, felizmente, abundante em órgãos pares. No caso do olho, a existência dum outro tem uma importância funcional incrível; não é apenas mais um, é sinérgico. O campo visual de um olho sobrepõe-se ao do olho contralateral na zona correspondente ao ponto cego; a visão binocular permite que, ao invés duma mera reconstrução cerebral com base na envolvência, seja usada a informação do outro olho para aquele ponto, levando a sua representação fiável. Não é por acaso que qualquer ilusão do género requer que feche um dos olhos.

Mas não fiquem tristes, a visão está cheia de mentiras, e ainda bem. Ver é uma construção. O olho é um órgão fenomenal, não haja disso dúvida, nenhuma câmara lhe faz sombra. Mas não passa duma ‘ferramenta’. O processamento visual está todo nas nossas cabeças. É algo que continuaremos a explorar nos próximos posts.